Análise | O golpe militar de 64 deve mesmo ser comemorado?

Texto: Higor Freire

Há alguns dias publiquei minha análise retratando as escolhas para o ministério do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e afirmei que talvez as indicações para o ministério da educação e cultural ficassem como a “cereja do bolo”. Pelo menos a indicação para o ministério da educação, não ficou.

Fora escolhido para liderar a pasta da educação o professor de ciência da religião da UFRJ, Ricardo Vélez Rodriguez. Anunciado como ministro no twitter oficial de Bolsonaro, Ricardo Vélez afirmou recentemente em seu blog que o golpe militar de 1964 é uma data para “lembrar e comemorar”. Declaradamente alinhado às ideias políticas do futuro presidente, ele também concorda com verificação nas provas do Enem antes da data de realização do exame, por Bolsonaro e sua respectiva equipe.

Antimarxista e crítico ao modo político de escolha ideológica das universidades, o futuro ministro evidencia de maneira transparente ser atraído ao sistema totalitário que os militares promoveram por 21 anos no Brasil. “Os nossos militares prepararam os seus quadros de oficiais para se inserirem no Brasil democrático, abrindo espaço ao público feminino e com pleno respeito às lideranças civis legítimas surgidas do voto popular e às instituições do governo representativo”.

É lamentável para um país em desenvolvimento, de democracia vibrante e com um duro passado de regime militar, possuir agora um ministro da educação que tenta distorcer e manipular a sociedade sobre um sistema que só não perdurou por mais tempo no poder por falta de capital político, fraqueza econômica e, acima de tudo, bravura da imprensa que contra toda a censura e forte violência tentou mostrar ao país a covardia exercida contra os direitos de defesas, direitos humanos e acima de tudo, o direito à liberdade e de expressão.

O pilar da democracia sempre será constituído (principalmente) pela liberdade de imprensa e de expressão. Um modelo de poder que torturou, assassinou, perseguiu, prendeu, exilou e desapareceu milhares de pessoas por adotarem uma postura subversiva à ditadura, jamais deverá ser celebrado. É um pensamento que configura um fascismo contido, mentiroso, argiloso. É como olhar para o retrovisor e sentir nostalgia do passado e se considerar, hoje, impotente com o modo livre de viver brasileiro.

O modo empoderado que as mulheres vivem e decidem sobre suas vidas, como os gays se comportam e se manifestam, que os negros não representam mais um servilismo ao branco. Os índios possuem fortes instituições que o defendem, o candomblé caminha para uma melhora ainda tênue de tolerância. É fácil entendermos o medo deles. Por mais que sejam os vitoriosos das urnas, permanecem no passado, os protagonistas continuam sendo os indivíduos que acabo de citar. É onde a coragem habita.

Procurei a professora e historiadora dos cursos de jornalismo e publicidade, Ozangela Arruda da UniFanor | Wyden para um breve comentário e me despeço com suas palavras sobre a tentativa frustrada do ministro em saudar o golpe militar:

“É muito preocupante pensar que o futuro ministro da educação acha, acredita, que devemos comemorar golpes. Golpes eles devem ser realmente problematizados, observados, analisados e inclusive precisamos estudá-los para não mais cairmos dentro dele. Se um ministro da educação comemora um golpe na verdade ele também acaba comemorando todas as atrocidades que esse golpe veio a trazer à sociedade.

Nas palavras do ministro, o golpe de 64 ele trouxe uma democratização por meio dos militares isso vai totalmente contra estudos, pesquisas, a própria historiografia que foi se construindo ao longo dos anos por meio de muita pesquisa, por meio de fontes, de teses, de dissertações e de pesquisadores que perceberam na documentação e que perceberam e analisaram a situação política do país e chegaram a conclusões que até hoje temos como conclusões coerentes.

Ir contra a historiografia é realmente muito preocupante assim como também outras falas do futuro ministro da educação causa espanto e preocupação quando ele por exemplo afirma que o presidente eleito, deve vir analisar as provas do Enem, o que é um grande absurdo porque nós temos vários profissionais, vários educadores, institutos, órgãos, que trabalham com muita qualidade na elaboração e na análise dessas provas e o presidente da república não tem condições de analisar um material desse a não ser que seja com o intuito de realmente censurar.

Não podemos analisar ou fazer parecer de uma área de uma competência que não nos cabe, esse é um fator que inclusive eu faço uma ligação a outra preocupação que nós temos que ter, principalmente nós educadores temos de receio do que está por vir em relação a educação brasileira”.

 

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