A saudosa arrogância de Ciro

Texto: Higor Freire (Foto:Eduardo Anizelli/Folhapress)

Em entrevista na quarta-feira, 31/10, para a Folha de S. Paulo, Ciro Gomes (PDT) distribuiu críticas ao PT e ao Lula, sobrando até mesmo a adjetivação de “bosta” para o sociólogo Leonardo Boff. Foi sua primeira entrevista após retornar de viagem quando perdeu o 1º turno das eleições presidenciais de 2018.

Para Ciro, agora deve ser muito fácil bater em cachorro morto (PT) e alegar ter sofrido uma traição (quando Lula articulou a retirada de apoio do PSB em sua candidatura). Difícil mesmo parece ser enxergar os créditos do fim dessa eleição, os frutos colhidos e as boas surpresas que se desenrolaram em sua campanha. O pedetista prefere seguir ressentido com o PT e, simplesmente, não entendendo que, a nível nacional, a construção de capital político requer bagagem, tempo e, acima de tudo, saber compreender o trâmite político e observar que uma derrota não configura uma traição.

O diretório do PDT e Ciro, afirmaram o desejo da construção de um bloco da esquerda descolada do PT, procurando esvaziar apoio com partidos inadequados ao estilo petista de conduzirem a futura oposição ao PSL. Parece que Ciro ainda não sentou em uma cadeira com sua militância partidária e observou coisas básicas que aconteceram nesta eleição.

O PT elegeu a maior bancada de deputados federais, queira-se ou não, é um grande feito tendo em vista que em menos de três anos o partido sofreu um amargo processo de impeachment e perdeu, em 2016, diversas prefeituras nas eleições municipais do país. O PT também elegeu o maior número de governadores, 4 no total, e o PDT, apenas 1, sendo esse uma reeleição. Nas três campanhas pedetistas de segundo turno aos governos estaduais, os três candidatos apoiaram ou foram apoiados por Bolsonaro ou seus representantes, algo totalmente longe do que o partido defende em decisões e eventos internos e externos.

Algo inquietante é como o PDT construirá esse novo bloco de esquerda isolando o PT… O Partido dos Trabalhadores tem dentro da câmara uma base aliada antiga, contando o PSOL e PCdoB, dentre outros nomes importantes da tradicional esquerda e, possui, sobretudo, profunda experiência em liderar oposições. Por último, Ciro parece se esquecer que o único estado que lhe deu vitória no Brasil foi o Ceará, e o mesmo nesse segundo turno deu 70% dos votos ao candidato Fernando Haddad, ou seja, o PT que ele tanto rechaça críticas, no momento continua bastante vivo.

Ciro Gomes que já passou por diversos e tão distintos partidos (sua família sendo levada junto), sabe muito pouco o que é uma vivência partidária. Acham que um partido é apenas um mero protocolo a se seguir quando buscam exercitar o poder, seja lá qual for a pretensão de cargo. Nunca tiveram apego a nenhum a partido, nunca foram de esquerda por mais que agora queiram defender esta ideologia. O interesse nunca foi um projeto partidário, mas sim, um projeto pessoal. Não construíram grandes laços com a militância, exceto quando assinam o cheque em campanhas. Não se deleita no simbolismo presente entre a persona do político e a bandeira partidária que levanta.

Após passar tantos anos afastado dos quadros políticos nacionais, Ciro conseguiu nessa campanha feitos surpreendentes e inesperados. Mesmo com algumas colocações infelizes há mais de uma década atrás, Ciro acabou obtendo o apoio de uma grande classe feminista, da comunidade LGBT+ que defendeu com todas as garras sua candidatura nas redes sociais, em especial no Twitter, por ele ser “o único que derrotaria Bolsonaro no segundo turno”, como aparentavam as pesquisas. A hastag #ViraCiro durou dias em primeiro lugar nos Trendigs Topics antes do domingo de primeiro turno e pessoas de distintas classes e credos acreditaram em seu poder intelectual e firmeza política com aquilo que defendia. Foram 13 milhões de votos.

Sem dúvidas foram vários acontecimentos positivos que devem ter pegue de surpresa o núcleo de sua campanha. O momento agora deveria ser a busca de um maior protagonismo do PDT, em específico, no congresso, procurar angariar e conservar um maior apoio daqueles que foram às urnas e digitaram o número de sua candidatura. Distribuir ofensas e mágoas é algo redundante para alguém tão inteligente. O problema é que aquele velho Ciro que não gosta de ser contrariado, muito menos de estar do lado que perde, tem uma facilidade oceânica em se sabotar e promover a sua característica arrogância, muito conhecida aos que sempre acompanharam seus passos nos bastidores da política cearense.

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