Análise | A nociva inconsistência de Jair Bolsonaro

Texto: Higor Freire

Após chegada ao fim a corrida eleitoral, seguimos para um processo que tem sido um tanto conturbado, assustador e, por vezes, engraçado. A formação do governo Bolsonaro e seu ministério têm acontecido em meio a polêmicas e muita desorganização, principalmente no núcleo econômico, onde sempre houve pouca precisão e nenhuma opinião pessoal do presidente eleito.

A primeira grande polêmica de um governo que ainda está, por se dizer, em sua gestação, foi a tentativa de junção dos ministérios da agriculta e meio ambiente. Por mais que sejam temas parecidos se pensados em seus conceitos, são radicalmente opostos do ponto de vista de interesse do mercado e de políticas conservacionistas. Era algo que o excelentíssimo presidente eleito deveria saber, caso tivesse construído seu plano de governo debatendo com as diversas lideranças de ambas as frentes. Após descontentamento dentro de sua própria base política, decidiu voltar atrás e preservar a individualidade das pastas.

Em outro momento, foi anunciada a extinção do ministério do trabalho, onde a pasta deveria se incorporar a outra, não apontando em qual viria a ser. Dentre todas as tomadas de decisões, essa conseguiu ser a mais criticada. Sentindo a sensibilidade negativa da opinião pública, mais uma vez, Bolsonaro recuou. É um vaivém preocupante pra um governo democraticamente eleito, pois configura pouca consistência política, pouco estudo sobre as necessidades e deficiências da sociedade brasileira. Por mais que seja louvável a postura de reconhecer a má decisão e voltar atrás, é inegável a fragilidade de um governo que ainda não nasceu e vive de polêmicas ainda no processo de transição.

O ministério do trabalho, assim como todas as leis e direitos trabalhistas são o limiar do compromisso republicano com o trabalhador que sustenta este país. É um aspecto histórico que carrega consigo conquistas desde a Era Vargas, assim como o processo de redemocratização após a ditadura militar, movimentos de fortalecimento dos sindicatos, sem falar na difícil estrada percorrida de diversos partidos que tiveram sua ascensão em uma constante luta por melhores condições de trabalho, salário dentre variados direitos e leis. É não compreender que este país não gera riquezas, são os trabalhadores que vivem em sua maioria em uma situação de penúria, com pouquíssima qualidade de vida, tocando o Brasil pra frente e fazendo civicamente a parte que lhe cabe. Acima de tudo, fica o questionamento: como um governo pretendia aprovar uma amarga reforma da previdência extinguindo o ministério do trabalho? Qual pasta e quem seriam as testas de ferro a coordenar esse feito? Ainda bem que voltaram atrás. Mesmo.

Ainda não se sabe o que de fato irá acontecer e quem serão os titulares de pastas importantes como educação e cultura, onde Bolsonaro em diversas ocasiões criticou sem nenhum fundamento a integridade de ambos os ministérios e sobre quem utiliza os projetos concedidos por eles. Através de um vídeo (ainda em março deste ano), Bolsonaro chegou a oferecer o ministério da cultura para Alexandre Frota, um alguém que, como ele, projeta sua solidez política através de agressões verbais a terceiros e nenhuma ideia relevante no âmbito social e econômico. Talvez estas duas nomeações sejam deixadas como a cereja do bolo. Como diz a jornalista Cristiana Lôbo: “de tédio a gente não padece”.

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