Crítica: Madame X – A ousada viagem musical de Madonna

Texto: Douglas Pimenta

Em uma narrativa apresentada por letras coesas e variedades musicais, Madonna nos guia para uma jornada repleta de ousadia e constrói assim seu álbum mais criativo em anos.

Em abril fomos introduzidos através de um vídeo publicado nas redes sociais para a nova persona da senhora da reinvenção, Madonna é agora Madame X, título do novo álbum, o primeiro desde Rebel Heart (2015). Nos últimos anos vivendo em Portugal, Madonna se apaixonou pelo fado, ouviu funk, foi introduzida ao batuque de Cabo Verde e se aproximou da música latina como nunca antes. Suas descobertas musicais influenciaram sua composição e originaram a mais criativa experiência da artista desde o Confessions on a dance floor (2005), quando Madonna foi influenciada pela disco music e seu último grande álbum.

Madame X começa com os sonhos e devaneios de Medellín, música em parceria com o colombiano Maluma “ven conmigo, let’s take a trip…” a voz suave, as vezes sussuradas com teor sexual é um chamado para a viagem. Então a política assume destaque, Dark Ballet que usa toques de Tchaikovsky é subversiva, a canção assume um ponto de vista da história de Joana D”arc e expõe os julgamentos sociais que ainda nos cercam através de uma letra precisa e uma interpretação dramática.

Paul Sartre está na letra de I rise, assim como a jovem estudante Emma González, sobrevivente do massacre que matou 17 pessoas na sua escola em fevereiro de 2018. O discurso da adolescente é o fio condutor para Madonna através de autotune e sintetizadores cantar sobre resistência e uma clara alusão a sua visão sobre a política armamentista no mundo contemporâneo.

Foto: Steve Klein/ Divulgação

Em outros momentos o álbum consegue sair do contexto político e construir uma poética sobre a solidão, o amor e a diversão. Na inspirada Crazy, Madonna canta em bom português “Eu te amo mas não deixo você me destruir…’ e nos conta sobre os julgamentos dentro de uma relação em uma música bastante cativante e que poderia facilmente ser um sucesso se não fosse o ageismo presente na indústria musical, onde cantoras acima de 40 anos não tocam mais nas grandes rádios. Crazy não é nada experimental quando comparamos com a divertida Faz Gostoso, parceria com a Anitta que consegui reunir elementos do funk, samba e batidas africanas. Faz Gostoso é em grande parte cantada em português e nos apresenta uma variedade ainda inédita da Rainha do pop. Você jamais pensaria em ouvir Madonna repetir tantas vezes a palavra “safado”.

Madame X é sim uma jornada, bastante atual e crítica, sem perder a diversão. O álbum mais criativo e ousado de Madonna em anos consegue homenagear culturas, ter elementos bastantes intimistas e construir uma narrativa entre 15 faixas, algumas inspiradas, outras nem tanto sobre a música que é feita no mundo. Em alguns momentos o autotune e edição vocal incomoda ou apresenta canções que parecem destoar a experiência.

Ainda assim não vemos no álbum faixas que buscam imitar os sucessos atuais, existe uma criatividade para falar sobre as coisas que ela considera importante e reproduzir isso através de uma variedade de gêneros musicais. Madame X lembra ao mundo que lendas da música ainda existem e prova a autenticidade de Madonna em uma geração que não se importa tanto para legados. Em Killers who are partying ela deixa bem claro, “O mundo é selvagem, o caminho é solitário…” principalmente para mulheres que continuam desafiando os críticos e a sociedade como Madonna.

Madame X
Artista: Madonna
País: Estados Unidos.
Data de lançamento: 14 de junho de 2019 (Disponível nas principais plataformas de streaming).
Gravadora: Interscope.
Estilo: Pop, Pop Latino, Trap, Reggaeton

Julianna Formiga

Jornalista e professora na DeVry Fanor.

5 comentários em “Crítica: Madame X – A ousada viagem musical de Madonna

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