David Gilmour em São Paulo: Relato de um fã incondicional

Por Raphael Saraiva

Era 12 de Dezembro de 2015. Ainda fazia calor e estava escuro quando, já acordado, sou surpreendido com o despertador do celular. Apanho o aparelho e noto que nele marcava 3h da manhã. Não havia caído a ficha que naquele mesmo dia, dentro de algumas horas, minha namorada e eu estaríamos pegando um voo para São Paulo para realizar um sonho de mais de uma década: iríamos assistir ao show de David Gilmour, o vocalista e guitarrista da lendária banda inglesa Pink Floyd. Esse será um relato que irei compartilhar mais à frente.

De volta ao quarto escuro que emanava sentimentos com uma mistura de alegria, ansiedade e “pré-realização”, me levantei da cama rapidamente e fui me trocar após ter conferido umas 10 vezes a documentação para a viagem e, claro, os 2 ingressos para o show. Nesse tempo a Amanda, minha namorada, já havia acordado e estava quase pronta para que finalmente pudéssemos partir para o aeroporto de Fortaleza. Depois de muita checagem e de um pão com café, entramos no carro do meu pai que nos deu carona até nosso primeiro destino.

No caminho, fomos conversando ansiosamente sobre a viagem, música e, claro, o aguardado show de rock. Chegando no aeroporto, meu pai estacionou o carro em frente à entrada principal, desceu e nos deu um abraço, pedindo que a gente tomasse cuidado e que aproveitasse ao máximo. Ah, e como um fã de Pink Floyd, pediu que eu ligasse para ele no momento de algum solo épico de guitarra. Falei que sim e finalmente nos despedimos. Nós não havíamos levado mala, apenas uma mochila que portava comida, documentos, câmera fotográfica e algum dinheiro, portanto não foi necessário despachar nada, fato que nos levou diretamente para a sala de embarque. Portão B, voo 1517. Esse era o local.

Sentamos e só nos restava aguardar a chamada para o voo, que sairia às 6h. O relógio ainda marcava 5h e a ansiedade só tomava conta da gente. As pessoas iam e vinham, voos eram chamados, e o nosso parecia cada vez mais distante. Enfim, as 5h20, uma voz chiada e abafada anunciou a numeração que queríamos ouvir. Aos poucos, uma fila foi tomando forma e ficamos de pé. Lentamente fomos andando em direção à moça do balcão que verificava a documentação de todos ali presentes. Chegou nossa vez e mais uma etapa daquela viagem havia terminado. Seguimos felizes para o avião e cuidadosamente verificamos quais eram nossos assentos. Em mais ou menos 40 min o avião decolou.

No tempo em que ficamos viajando, não conseguia pensar em nada além do show. Peguei os fones de ouvido, conectei ao celular e fiquei ouvindo Pink Floyd até quase a hora de chegar em São Paulo. Num certo momento, um rapaz uniformizado se aproximou oferecendo alguns petiscos, entre eles havia biscoito, batata e a opção de suco, café ou refrigerante. Aproveitamos para comer e após isso retornamos ao breve descanso.

Finalmente, aquela viagem de 4 horas, que pareceu mais de 8, tinha chegado ao fim quando anunciaram o pouso da aeronave. Amanda e eu nos organizamos e rapidamente recolhemos tudo para guardar de volta na mochila. Outra fila foi se formando, dessa vez para que todos saíssem do avião. Entramos nela e logo estávamos no aeroporto de Guarulhos. Imediatamente, sem perder tempo, fomos em busca de algum táxi que nos levasse rapidamente ao estádio Allianz Parque, afinal nossa intenção era chegar cedo suficiente para conseguir ficar na grade, mesmo que da pista normal. Conseguimos um. O motorista foi muito educado e fechou um preço bacana para a gente.
São Paulo é gigantesca, mas para nossa sorte, o estádio não ficava tão distante dali, e para ajudar, o motorista, o qual não me recordo o nome, foi respeitosamente veloz. Dentro de 30 min já era possível avistar uma fila colossal, formada, em sua maioria, por gente com camisetas do Pink Floyd. A ficha começava a cair: estávamos ali, no local certo, prestes a assistir ao show da nossa vida. Bom, não tão próximo assim. Eram 11h naquele momento, sendo que os portões só iriam abrir as 4, e o show só começaria 8h. É, haja paciência. E o pior é que naquele dia fazia um calor do inferno e não tinha cobertura onde a gente estava.

Compramos água bem gelada de um dos vendedores que passava por ali. Aliás, vendedores e cambistas é o que não faltava naquela situação. Ingressos custando uma fortuna, itens do Pink Floyd como camisetas, broches e outras coisas não oficiais. Por enquanto, nos contentamos com a água e uma Coca-Cola.
Era impossível não reparar nas pessoas, nas conversas. Todos aparentemente muito ansiosos e falando sobre a música de David Gilmour. De vez em quando, um rapaz ao lado puxava assunto com a gente. Ele também era nordestino e já morava em São Paulo há algum tempo. Conversamos sobre nossa aventura, Pink Floyd e as músicas que mais queríamos ouvir mais tarde.

O tempo foi passando e a ansiedade aumentando. Notei então que a fila começava a se movimentar. O relógio marcava 4h e os portões se abriam. Fomos, então, andando e seguindo a linha em direção à entrada principal. Quando menos esperava, lá estava a gente mostrando nossa identidade e os ingressos. Rapidamente, após o processo de verificação, saímos correndo como loucos para dentro do Allianz Parque na tentativa de, como havia dito anteriormente, poder ficar na grade. Dito e feito. Lá estávamos nós, colados na grade da pista comum, não muito distante do palco, quase centralizados.

Felizmente, a visão era perfeita e já dava para ver o famigerado e gigantesco telão circular, este que fez parte dos espetáculos do Pink Floyd dos anos 70 até 1995. A emoção tomava conta e a ficha estava quase caindo por completo. Não dava para acreditar que tínhamos saído de outro estado e de repente estávamos ali num lugar relativamente privilegiado para assistir a uma das maiores lendas do Rock. Era surreal e, consequentemente, foi impossível conter um sorriso de ponta a ponta. Mas apesar de toda a euforia e felicidade, estávamos mortos de fome e sede.
Pegamos um pouco de dinheiro e, como uma facada no peito, compramos um cachorro quente de 10 reais que era vendido ali dentro, além de uma garrafa de água. Matamos o que nos matava e continuamos ali de pé, esperando o início do evento. O dia estava estranho e ameaçava chover o tempo inteiro. Não deu outra: caiu uma chuva fortíssima e mil coisas passavam por minha cabeça: “será que vai atrasar”; “espero que não cancelem o show se continuar assim até a noite…”. Felizmente, apesar de ter sido longa, a chuva foi parando aos poucos justamente quando estava próximo do show ser iniciado. Agora restavam apenas alguns minutos para o grande momento.
Eis que, na exata hora marcada, as luzes se apagam e a euforia toma conta do estádio que comportava cerca de 50 mil pessoas. Aos poucos uma luz roxa, com um efeito de fumaça adentra o palco. De repente, o inconfundível e maravilhoso timbre da guitarra de David Gilmour ecoa pelo estádio. Naquele momento, a ficha caiu completamente e foi impossível conter a emoção. Estava ali na nossa frente um dos nossos ídolos, a lenda viva da nossa banda favorita de todos os tempos.

O show se iniciou com a belíssima faixa instrumental 5 A.M., seguida por Rattle that Lock e Faces of Stone, ambas músicas do seu recém lançado álbum solo. Mas foi a partir da 4ª canção que todo o local se comoveu e cantou junto: Wish You Were Here. O refrão, cantado por 50 mil pessoas, foi de arrepiar a alma. O músico inglês, visto no enorme telão, parecia não acreditar naquela reação generalizada. O show foi seguindo. Clássicos como Money, Us and Them e a fantástica High Hopes foram tocadas, acompanhadas de imagens maravilhosas no telão circular.

A primeira parte do espetáculo havia terminado, dando espaço para um breve intervalo que nos proporcionou uma recuperada no fôlego. Nesse tempo, olhamos um para a cara do outro, e nenhum de nós parecia acreditar que estava vivendo aquilo. Fomos comentando alegremente sobre algumas das músicas tocadas, qual parte cada um gostou mais, etc.

As luzes se apagaram novamente: tinha começado a segunda parte do show. Astronomy Domine, música de 1967, deu início a sequência. Nessa parte, o show de psicodelia cheio de efeitos com luzes e fogos foi de cair o queixo. Em seguida, um tom peculiar de teclado é ouvido pelo público. Se tratava da introdução da épica Shine on You Crazy Diamond, clássico absoluto do Pink Floyd. Os solos de Gilmour arrancavam lágrimas do público que não parecia acreditar estar ali. Mais clássicos foram tocados, como a belíssima Fat Old Sun, a marcante Sorrow, Run Like Hell, além de outras faixas solo do músico.

A essa altura, já completamente eufóricos e realizados, como se não bastasse, começa a magnífica introdução de Time com seus relógios ensurdecedores. A música do clássico álbum Dark Side of the Moon foi um presente para os fãs da banda.

Para finalizar, é tocada a mais aguardada canção do Pink Floyd, considerada uma das melhores do rock de todos os tempos: Comfortably Numb. Se alguém ali achava que o show não podia melhorar, estava completamente enganado. O clima nostálgico, o refrão arrasador e o maior solo de guitarra do rock foram suficientes para realizar o sonho de qualquer amante não apenas do Pink Floyd, mas do rock de modo geral. Mesmo já tendo ouvido a música milhares de vezes, além de assistir vídeos e mais vídeos, dvds e etc, nada se compara a presenciar aquilo ao vivo, e sendo executada pelo próprio criador.

Após 5 minutos arrasadores do solo final, o estádio é completamente iluminado. O músico inglês de 70 anos, junto a incrível banda, se despede do público com muitos agradecimentos e o famoso “thank you very much indeed”.

Encerrado o show, minha namorada e eu olhamos um para o outro, mais uma vez, e lembro de termos falado algo do tipo: “zeramos a vida”. Enfim, como havia falado no início do relato, conseguimos realizar um sonho de mais de uma década. O que parecia impossível, tinha se concretizado, e da melhor forma possível.

Julianna Formiga

Jornalista e professora na DeVry Fanor.

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