Liberdade de Expressão x Discurso de Ódio: Desafios de atuação do comunicador em uma sociedade polarizada

Texto: Jamille Ipiranga e Jéssica Marte

A cerimônia de encerramento da 15ª Edição da Semacom, na noite de ontem, (04), realizada no Centro Universitário UniFanor | Wyden – Campus Dunas, foi prestigiada por alunos, professores, coordenadores e convidados em geral. Com a mesa-redonda “Liberdade de Expressão x Discurso de Ódio: Desafios de atuação do comunicador em uma sociedade polarizada”, os palestrantes discutiram sobre o tema e, em seguida, iniciou-se uma discussão entre todos os presentes.

O pleito que encerrou a Semacom teve grandes personalidades como os seguintes palestrantes:

Samira de Castro, jornalista graduada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce) e 2ª Tesoureira da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). É redatora da Editoria de Reportagem do Diário do Nordeste (licenciada para mandato sindical), figurando no ranking dos mais premiados jornalistas do Brasil (Portal Jornalistas e Cia.), e é membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos do Ceará.

Marcos Giovanni, bacharel em direito pela UFC. Advogado e ativista de direitos humanos. Mestre em políticas públicas pela UECE. Doutorando em sociologia pela UFC, e pesquisador do CNPQ.

Valter Pinheiro, professor aposentado e ex-preso político da ditadura. Estudou na Faculdade de Filosofia do Ceará, que deu origem à Universidade Estadual do Ceará (Uece). Em 1970 entrou para o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Em 1971, foi preso pela primeira vez, e apesar da tortura, Valter Pinheiro não delatou os companheiros de militância nem foi indiciado.

Honório Silva, 1969, estudante, funcionário público federal, ativista no movimento estudantil, militante no PORT, depois PCBR. Preso duas vezes em Fortaleza, 1969 e 1970. Jubilado da Escola pelo artigo 477 e desligado do emprego. Torturado na polícia federal, DOPS, 23 BC, quartel da polícia militar e casa dos horrores na Subsistência do Exército, em Fortaleza. Condenado pela Justiça Militar em Pernambuco fugiu durante 10 anos percorrendo quase todos os estados brasileiros. Hoje empresário e artista plástico, ainda lutando por justiça, e pelos direitos dos trabalhadores.

Cláudio Silva, advogado e professor, mestrando em direito (UFC), pós graduado em direito público e em economia e desenvolvimento. Integrante da Rede nacional de advogados/as populares.

Erotilde Honório, jornalista pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É graduada em História, mestre e doutora em Sociologia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e também atriz. Além de Clínica Geral e especialista em Homeopatia e Pediatria, graduada em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (Uece) com pós-graduação em Medicina Estética (SBME – RJ) e em Dermatologia (IPEMED – RJ).

Cada colóquio representava uma história de vida, e o público do evento ficou bastante atento, pois cada fala refletia um sentimento diferente de acordo com os relatos e opiniões expressas.

Samira de Castro iniciou sua fala citando a Declaração Universal de Direitos Humanos, frisando que o Art. 19 prevê que a comunicação é um direito. Abordou o tema mídia e analisou a existência de uma superpolarização nas redes sociais, com milhares de compartilhamentos, o que tem gerado uma “guerra” de ideias. E conclui dizendo que “as pessoas podem dizer o que pensam, desde que seja de forma respeitosa, pois o problema não é emitir uma opinião, e sim, a forma como você faz isso”, visto que “cada pessoa é responsável pelo impacto que as suas palavras causam”.

Não somos obrigados a ser bons em tudo”, diz Marcos Giovanni, fazendo uma reflexão de que a sociedade tem nos cobrado a perfeição, a termos que desempenhar todos os papeis com excelência. Fez referência aos comentários de ódio proferidos nas notícias da morte de Marielle Franco e da Chacina do Benfica. Constata que “o ódio não é algo novo na nossa sociedade, basta ver as manifestações da época da ditadura”, e finalizou dizendo que, “o ódio de ontem era um ódio mais físico, e hoje, é um ódio mais virtual”.

O ex-detento político Valter Pinheiro foi muito aplaudido na leitura do seu currículo, deixando claro o agradecimento a tudo o que ele representa. Contou que todos que atuavam contra a ditadura militar eram chamados de vândalos, baderneiros, comunistas, terroristas e outros rótulos criados para deturpar a imagem das pessoas que se insurgiam contra o regime militar. Declarou que “a questão do ódio era muito semelhante ao que acontece hoje, aliás, o que está acontecendo hoje, é quase uma repetição do que aconteceu naquele período”, alertando também que nos tempos atuais, “não há uma imprensa voltada para os direitos dos trabalhadores”, gerando reflexão para os profissionais da comunicação e do seu papel.

Valter finalizou sua fala refletindo que “é uma questão muito séria esse debate sobre o ódio que hoje nós vivemos mais uma vez, não é uma questão de agora, mas agora vem se intensificando” e reiterou que “não se pode deixar que morra a memória do que aconteceu”.

Honório também abordou assuntos ligados à ditadura militar, onde ocorreram muitos crimes desde “colarinho branco” até envolvimento com tráfico de drogas. Trazendo o debate para os dias atuais, comentou que “a grande mídia vem fomentando o ódio”, havendo muita análise da notícia, e nós estamos precisando apenas da divulgação da notícia, de maneira neutra e isenta. Encerrou sua fala com a ideia de que “os jornalistas têm uma responsabilidade ética e moral de propagar as boas notícias, que não fomentam o ódio”, afirmando que “é uma responsabilidade muito grande, excepcionalmente, nesse momento”.

O advogado e professor Cláudio abordou o tema da palestra sob a ótica jurídica, citando casos práticos de ações judiciais e explanou sobre o trabalho do comunicador e da comunicadora. Questionou se, “Há oposição entre liberdade de expressão e discurso de ódio?” e concluiu dizendo que “O discurso de ódio nós vamos combater disputando corações e mentes”.

Por fim, Erotilde, que é irmã de Honório, encerrou a mesa-redonda discursando sobre a mágoa que ela tem por saber que os torturadores não foram punidos. E afirmou que “o povo brasileiro não é bom, não! Tem muito ódio sim! Tem muita diferença de classe sim!”, e sob aplausos expressou a sua crença de que a juventude pode e deve salvar o Brasil.

Terminadas as exposições dos palestrantes, a professora Ozângela Arruda mediou o debate em que foram realizadas perguntas num só bloco, tendo a professora Camila Leite participado junto com outros alunos elaborando perguntas que enriqueceram a palestra.

A Semacom 2018 foi um sucesso de público, organização e preparação dos palestrantes. Foram ofertadas oficinas, palestras, mesas-redondas e cine-debate gerando no público um sentimento de entusiasmo e protagonismo, sobretudo para os alunos de Comunicação Social se inserirem no mercado de trabalho mais amadurecidos e conscientes do papel do comunicador social.

Fotos: Jamille Ipiranga

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