Mais ou Menos Médicos

Texto: Jamille Ipiranga

A celeuma está criada e o problema posto é grave. Mas, muitos de nós, nunca entenderemos a dimensão do problema que é perder os médicos de Cuba. Afinal, não moramos em periferias ou lugarejos ou mesmo em lugares inacessíveis.

Questionar certos critérios do Programa Mais Médicos é válido, poderíamos ter feito um debate democrático com os envolvidos, os médicos cubanos, com Cuba, com os médicos brasileiros e, sobretudo, com a população assistida por esses médicos. Questionar sobre os salários dos profissionais, e uma melhor divisão entre eles e o país de origem do qual eles são funcionários públicos, teria sido muito interessante, assim como, ponderar a possibilidade de trazerem suas famílias. O governo brasileiro poderia ter proposto outros critérios de qualificação dos admitidos e testes de validações de seus diplomas, tudo isso faz parte de bons argumentos, mas o debate não houve, só a “debandada”.

Inicialmente, para bom debate, precisaríamos analisar o porquê do programa ter sido criado. No Brasil, segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), temos uma média de 470 habitantes para 1 médico, essa situação varia de acordo com o desenvolvimento regional. No Maranhão, por exemplo, temos 1 médico para 1382 pessoas. Poucos querem ir para as cidades interioranas e pequenos vilarejos. Apesar desses dados, é importante ressaltar que, esse ano, foi vetado a abertura de novos cursos de medicina no Brasil pelos próximos cinco anos.

Um segundo ponto a ser levado em consideração é que a preferência de profissionais do Mais Médicos, sempre foi dos brasileiros formados no Brasil, em segundo lugar os brasileiros formados no exterior e, por último os médicos estrangeiros formados no exterior. Médicos cubanos não tiraram emprego de médicos brasileiros. Não havia médicos interessados em atuar em determinadas áreas. Simples assim. Os médicos de Cuba toparam, se deslocaram para esses locais e, desde então, trabalham para uma comunidade que, muitas vezes, não tinha atendimento.

E agora? Há promessas de que serão abertos editais e consequentemente vagas para suprir essa evasão dos profissionais. Pergunta-se: e por que os médicos brasileiros, que não queriam essas vagas, vão querer agora? Os salários serão muito maiores? Que seja. O problema era esse ou nunca tiveram nem terão interesse de trabalhar em áreas de risco, de pobreza e de difícil acesso? Nãos os julgo, mas percebem a importância dos que aceitam?

Negociar melhores condições com Cuba teria sido o primeiro passo para resolver efetivamente a questão. Discursos ameaçadores e moralistas só abrem lacunas para se resolver a questão. Está criado o impasse, que para nós, não passa de uma palavra, mas para outros, custa uma vida.

 

4 comentários em “Mais ou Menos Médicos

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