O antifascismo no futebol: uma história de luta e resistência

Texto: Erico Cardoso

O futebol é tido como um dos esportes mais populares em todo o mundo, isso não se pode negar. Porém, junto com esse título, podemos atribuir-lhe também o machismo e a homofobia. O Brasil é um grande exemplo disso. Recentemente, em uma partida de futebol pelo campeonato brasileiro, a torcida do Vasco, que jogava contra o São Paulo, deferiu gritos homofóbicos forçando o árbitro da partida parar o jogo até que o respeito fosse restituído na arena. Esse tipo de comportamento é muito comum em torcedores apolitizados que reproduzem anseios pessoais na tentativa de ofender o time e a torcida inimiga. Aconteceu durante anos e é louvável a tentativa por parte dos times de tentar mudar essa ideia.

 

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Foto antes da partida entre Start e Flakelf | Imagem: Reprodução, 1942

É valido lembrar o caso de resistência no futebol mais famoso. Durante a ocupação nazista na capital ucraniana, os times de futebol locais foram forçados a trabalhar para o regime, e, como uma ideia inocente de um padeiro, foi sugerido um campeonato amistoso entre os times hitlerianos e os times de Kiev. Dentre os times ucranianos, temos o Dínamo de Kiev e Lokomotiv de Kiev, que, junto a outros times menores, formaram o “Star”. O campeonato foi um fracasso para os times alemães, que perderam todas as partidas por goleadas. A população de Kiev logo começou a adotar o “Start” como símbolo de resistência nazista.

O jogo mais famoso foi contra o time da Luftwaffe, Flakelf, que perdeu a primeira partida de 5 a 1, gerando revolta no alto escalão nazista, que não hesitou em pedir uma revanche. A revanche foi aceita, mas membros da SS, polícia de repressão alemã, ameaçaram os jogadores e, antes do jogo, visitaram os vestiários ucranianos exigindo que estes perdessem a partida, o que não foi obedecido e, no intervalo do jogo, foram visitados novamente. Contra todas as ordens nazistas, o time venceu a partida por 5 a 3 e foram perseguidos. Em poucos dias, a maioria dos jogadores já haviam sido enviados para campos de concentração.

Porém essa luta política dentro dos campos não é nova. Existem setores da esquerda que consideram o futebol como uma questão “panis et circenses”, que, assim como a religião, é o ópio do povo, mas durante anos o futebol foi usado como forma de luta contra políticas autoritárias, como o jogador Sócrates, que lutou ativamente contra a ditadura civil-militar brasileira.

Na ditadura de Francisco Franco na Espanha, times como o FC Barcelona e Athletic Bilbao lutaram ativamente dentro do futebol para a libertação da população, o time Real Madrid beneficiou-se com o regime. Franco havia aparelhado censuras e controles dentro do futebol para evitar manifestações populares de resistência ao regime, e quanto mais Franco tentava censurar, mais os times ganhavam força.

Na Itália fascista, Benito Mussolini tinha planos de criar um time de futebol do regime para o regime, onde seus ideais seriam reproduzidos, na intenção de criar uma hegemonia cultural fascista. Existiam, em Roma, quatro times principais que Mussolini tentou transformar em um time só, o AS Roma, mas enfrentou a resistência do clube Società Sportiva Lazio e, anos depois, Roma parou de ser vista como um time do regime, mas sim um time de esquerda, graças a seus torcedores. Os três times que formaram o AS Roma eram formados majoritariamente por operários, enquanto o que se opôs era um time da burguesia, que compactuava com os ideais fascistas.

No contexto brasileiro, a torcida da Gaviões da Fiel surgiu em 1969, com o intuito de questionar a presidência do time por Wadih Helu, que era filiado ao ARENA, partido político que deu sustentação à Ditadura Civil-Militar e que fazia uso do time para se eleger como deputado federal. O movimento ficou mais popular no final de 1970, quando entrou em diversas camadas sociais com a campanha “Anistia ampla, geral e irrestrita”.

Entre 1982 e 1984, os jogadores Sócrates, Wladmir, Casagrande e Zenon idealizaram o movimento Democracia Corintiana, que tinha como intuito discutir políticas internas do clube, como treinamento e concentrações, transformando o que eram decisões da cúpula do time em uma discussão democrática e igualitária entre jogadores e funcionários do clube. Em 1984, da Democracia Corintiana se juntou com a Gaviões da Fiel se juntaram e aderiram ao movimento “Diretas Já!”.

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Sócrates na Copa de 1986 | Imagem: Getty Images

Sócrates, abertamente socialista, e dizia que o “futebol permite que o pior ganhe. Nada mais marxista ou gramsciano que o futebol”, fez uma autocrítica como jogador de futebol e suas condições de trabalho e, mais que isso, questionou o abuso de autoridade e as relações de poder.

Fernando Coimbra, entrou na faculdade de filosofia aos 18 anos e participou do Programa Nacional de Alfabetização, o PNA, de Paulo Freire e iniciava sua carreira como jogador no Fluminense FC e, com o início da ditadura, foi taxado como subversivo e teve diversas oportunidades de contratos impedidas. Foi vigiado durante a ditadura de Antônio Salazar, em Portugal, e em poucos meses no clube foi dispensado e voltou para o Brasil. Aqui, foi preso e torturado no DOPS e forçado a encerrar sua carreira futebolística e focou em ajudar seu irmão, Zico. As histórias de resistência de jogadores contra as atrocidades do capital são muitas, todas memoráveis em sua própria essência, mas que são muitas para serem contadas todas.

Atualmente, com a ascensão do neo-fascismo por todas as partes do mundo, o sentimento de revolta evoca novamente essa necessidade por luta social e por um mundo mais justo. Em Fortaleza, torcidas como a do Vozão Antifascista, do time Ceará SC, a torcida do Ferroviário e a do Fortaleza FC, mostram presença dentro dos estádios e conexão com a massa torcedora, com o intuito de esclarecer e conscientizar a população da problemática do fascismo dentro dos estádios, além de resistir vigorosamente contra a truculência sistemática do Estado brasileiro.

Essa conexão é importante para o contato com a causa e ideologia antifascista. É comumente visto a disseminação hipodérmica de ideais fascistas por parte dos governantes brasileiros, como o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro e governadores como Wilson Witzel, que, em nove meses de mandato, aumentou as mortes por policiais em 12% em relação a 2018.  Foram 731 mortes de janeiro a maio desse ano, o que é aproximadamente cinco por dia.

Quando relacionamos esses fatos com o esporte, parece não ter nada a ver, uma coisa é política e outra é futebol, e como já diz um velho ditado popular brasileiro: futebol e política não se discutem. Bom, discute-se sim. A necessidade dessa discussão é exatamente porque a esquerda chama o futebol de ópio do povo.

A religião era mistificada, mantinha-se longe da política, até que membros da igreja católica, influenciados por igrejas norte-americanas, passaram a lutar contra as atrocidades do regime civil-militar brasileiro, e ficaram conhecidos como a Teologia da Libertação, que tinha objetivo principal espalhar a liberdade cristã e ideais socialistas contra a tirania. O principal expoente dessa comunidade foi o Frei Tito, torturado pelo infame delegado Sérgio Fleury e morreu exilado na França.

Como a religião, o futebol pode deixar de ser um “panis et cirquensis” e transformar-se em uma forte luta contra o fascismo, racismo e sexismo. É necessária, mais que tudo, a conscientização, que, como o filósofo esloveno Slavoj Žižekjá falava, a revolução vai acontecer somente quando todos tiverem consciência do que precisamos. Nós não somos imunes a ideologia, tampouco os fascistas. Mas, para isso, a esquerda precisa se colocar no lugar do oprimido, entender sua língua e mudar o discurso academista para um discurso que o pedreiro analfabeto e o PhD em Políticas Públicas possam entender.

Nas eleições de 2018 foi onde essa necessidade mostrou-se mais evidente. O candidato do partido fascista, PSL, adotou uma comunicação através de memes, distanciando-se das televisões e mantendo-se na internet, utilizando de ferramentas como o Twitter, Instagram, Facebook e Youtube. Essa possibilidade de diálogo com a grande classe possibilitou não somente a disseminação de suas ideias, mas, somado com a crise política, social e econômica que existe no país, formou-se uma ligação entre os Bolsonaros e seus eleitores, tornando-os em uma classe que o defende sobre todos os custos.

Essa classe, a mais pobre, que sabe o seu local no mundo, também é aquela que tem times do coração, que acompanha os jogos e vai aos estádios. É com essa classe que se faz necessário o diálogo. Os movimentos antifascistas no futebol, não somente no brasileiro, são essenciais para construir uma conexão com o proletário e transformar a visão do que é a liberdade verdadeira não de cima para baixo, mas de baixo para cima.

 

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