Redes Sociais Jornal Grande Circular
Jornal Laboratório
Devry | Fanor | Nucom

O jornalista, a política e o antagonismo

Foto: Adriano Vizoni / Folhapress

Texto: Higor Freire   

  No último sábado, 07/04, foi o dia do jornalista, passado por mim quase que despercebidamente em um fim de semana atolado de trabalhos e estudos para provas. Foi nesse sábado também que o ex-presidente Lula resolveu se entregar à Polícia Federal e, desde então, cumpre sua pena em Curitiba. Para alguns, esses dois acontecimentos talvez não possam ou não devam ter alguma correlação. Mas têm.

   Lembro que exatamente há 4 anos atrás, iniciei uma forte e intensa relação com a política e o jornalismo, justamente antes de uma campanha presidencial difícil e de pouco conteúdo. O futuro se desenhou e com ele, nós, estudantes de comunicação, e os jornalistas em sua função mais prática, por assim dizer, vimos o passo a passo de uma forte e triste crise econômica que assola o país desde então, uma crise política do tamanho de um oceano, uma presidente inapta em articulação, cujo o poder se esvaía por cada feixe de luz no Palácio do Planalto. Havia (e hoje pior) um congresso com verdadeiros bandidos e gângsteres, cumprindo suas funções institucionais com o aval de figurões das demais empreiteiras e de quem coordenou cada passo do impeachment armado com uma tropa de choque de picaretas, Michel Temer.

   Dilma caiu, Eduardo Cunha também. Hoje temos um governo medíocre, sem nenhuma popularidade, com o olhar apenas sob o congresso, pois é lá onde as coisas acontecem e as verdadeiras amizades (negócios) se fincam e florescem. Onde nós, jornalistas, estivemos esse tempo todo? Aqui vos digo: fazendo o que nos cabe e além disso. Não é nada fácil produzir conteúdo quando quase ninguém mais quer pagar por notícia. É desanimador dormir pouco, não ter vaidade nenhuma quando vamos atrás da informação, passar horas preparando um texto, uma fala e ser chamado de “coxinha” ou “petralha” nas redes sociais. É angustiante ser hostilizado em público. Ouvir gritos, xingamentos e sermos taxados como “vendidos”. Ainda assim, seguimos em frente.

    Seguimos em frente pelo fato de sermos destemidos e amarmos a euforia de entrar em cena com a informação. Seguimos em frente pelo elogio daquele espectador, que soube tão educadamente agradecer ou chamar nossa atenção, seja num comentário do Twitter ou na rua quando passamos. Seguimos em frente quando aquele professor que gostamos nos impulsiona a trilhar o árduo caminho. Seguiremos em frente enquanto o ar que inspirarmos e expirarmos forem o da democracia, da pluralidade de opiniões e do debate. Seguiremos em frente enquanto o café estiver quente e a mesa do computador uma zona. Seguiremos em frente enquanto ônibus atrasar e a fonte desmarcar. Se você cansou de seguir em frente, realmente, isso aqui não é para você. O que nos guia e nos testa não é o sofrimento, mas é saber que a sociedade, desamparada e ainda assim com um realismo esperançoso, precisa de nós.

    Lula foi o presidente com a maior popularidade já registrada ao deixar o Planalto, 87%, se tornou o primeiro ex-presidente preso na história desse país. Há aqueles que vibram e se alegram com isso, eu faço parte do time que está triste, não por acreditar na inocência de Lula, mas por mais uma vez ter sido vítima de uma clara relação promíscua entre um servidor público elegível e um empreiteiro doutor em realizar lobbys e com muita fome de dinheiro e poder em Brasília. Lula ao final de seu discurso, no último sábado, proferiu palavras interessantes com um verdadeiro tom de aprendizado: “Os de gravatinha, que iam atrás de mim, agora desapareceram. Quem estão comigo são aqueles companheiros que eram meus amigos antes de eu ser Presidente da República”.

    Realmente, os engravatados hoje (e já há alguns anos, na verdade), pouco querem saber de Lula. Os engravatados estão do lado do poder, da barganha, do lucro. Os engravatados só possuem um único lado: o deles mesmo. É fácil hoje ser um verdadeiro cão arrependido e falar mal dos amigos que te delataram. Difícil mesmo é saber se Lula, caso eleito de novo, não faria a mesma coisa. Não promoveria jantares e compartilharia de bons uísques com os caciques do PMDB. Acho que Lula, na verdade, deve sentir até uma pequena nostalgia quando se lembra de momentos parecidos. Por mais que se queira, arrependimentos e a continuação do discurso do “nós contra eles” não é o que irá colocar esse país nos eixos.