Opinião: A verdade pede socorro

Texto: Érico Cardoso

A vida política de Jair Messias Bolsonaro sempre foi marcada por polêmicas. Durante toda sua trajetória política, seus comentários polêmicos, suas “mitadas”, foram se acumulando e formaram uma base grande de jovens politicamente incorretos. Suas declarações foram ficando cada vez mais cômicas e repletas de falácias. Podemos datar suas peripécias desde antes de 1999, quando declarou que era favorável à tortura no programa Câmara Aberta: “Pau-de-arara funciona. Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso. E o povo é favorável também”.

O então deputado Jair Bolsonaro, em 1999,  no programa Câmera Aberta — (Foto: Reprodução/ TV Bandeirantes)

Até que, em 2014, surgiu o Movimento Brasil Livre. O movimento ultraconservador autointitulado liberal econômico e contrário ao PT, alavancou o sentimento de revolta que já vinha aumentando dentro da classe média, com várias manifestações populares que culminaram no impeachment da Presidenta eleita Dilma Rousseff; e, dentro desse movimento democrático contrário ao governo Dilma, uma face veio para ficar: a de Jair Bolsonaro.

O deputado há 28 anos, antigo membro do Partido Progressista (PP), Partido Social Cristão (PSC) e atual membro do Partido Social Liberal (PSC) acumulou diversos projetos, mas apenas dois aprovados. Um desses projetos é sobre uma suposta “pílula do câncer”, fosfoetanolamina sintética, que vinha sendo distribuída pela USP gratuitamente para tratamento de câncer, mas não passava de um placebo.

Em resumo, a vida política de Bolsonaro é baseada em falsas verdades e mitadas nas redes sociais. Isso muda quando, em 2016, rumores de que existia uma possibilidade de uma possível candidatura à presidência.

Sua candidatura, assim como a candidatura de Donald Trump nos Estados Unidos, tem grande influência de Joseph Goebbels, publicitário de Hitler na Alemanha Nazista. Christopher Paul e Miriam Matthews citam em seu artigo “The Russian ‘Firehose of Falsehood’ Propaganda Model” como o Presidente Russo, Vladmir Putin, utiliza de diversos canais de mídia para criar um sentimento de veracidade de notícias falsas em seu governo.

A Mangueira da Falsidade

No artigo, os autores citam diversos pontos de descaso com a verdade pelo governo russo, como a guerra na Crimeia e a campanha para manter a positividade do governo; citam diversas maneiras de como o governo buscava manter a sociedade em uma determinada agenda. O uso repetitivo de notícias por diversas fontes e para um determinado grupo é muito difundido pelo governo russo; a repetição dessas notícias cria um falso senso de realidade, tornando aceitáveis as notícias por mais absurdas que sejam.

Essas notícias podem, na hora de sua postagem, não serem tidas como críveis, porém, com o passar do tempo, passam a ter mais credibilidade. Assim como notícias que foram desmentidas perpetuam sua importância na mente dos leitores. Leitores são suscetíveis a ter dificuldades em discriminar uma notícia falsa de uma verdadeira, e assim as compartilham.

As notícias disseminadas nas redes sociais são mais comumente aceitas como verdade caso tenham suporte de uma evidência – fotos, áudios, depoimentos, mesmo que essa evidência seja falsa.

Trazendo esse artigo para o Brasil, podemos apoiá-lo pela maneira como Bolsonaro propaga as notícias. No dia 28 de agosto de 2018, em entrevista no Jornal Nacional, transmitido pela emissora Rede Globo de Telecomunicações, portando o livro “Aparelho Sexual & CIA”¹, Bolsonaro fala: “Eles tinham acabado o Nono Seminário LGBT Infantil. Eles estavam discutindo ali, comemorando o lançamento de um material para combater a homofobia, que passou a ser conhecido como Kit Gay.

Entre esse material, Bonner, estava esse livro lá (mostrando o livro citado acima); então, o pai que tem o filho na sala, retire o filho da sala. Para ele não ver isso aqui. Se bem que na biblioteca das escolas públicas tem. Olha só! ” Interrompido pelos jornalistas da bancada, o livro foi guardado. Após esse episódio, diversos sites deram mais visibilidade ao suposto material.

O tal Kit Gay é o projeto Escola Sem Homofobia, criado durante o ministério do presidenciável pelo PT, Fernando Haddad, que visava conscientizar as crianças sobre a existência da homossexualidade e caminhos para que a homofobia fosse combatida, além de sinais de que ela existe. O projeto foi vetado ainda em 2011 pela Presidenta eleita Dilma Rousseff.

O Tribunal Superior Eleitoral já vetou que fossem divulgadas notícias falaciosas sobre o Kit Gay, mas de onde realmente veio a ideia de usá-lo como campanha?

Máquina de Fake News

Durante a campanha pelo segundo turno das eleições brasileiras, o jornal Folha de S. Paulo, por meio de Patrícia Campos Mello, apurou que a campanha de Bolsonaro estaria recebendo impulsionamento voluntário de grandes empresários, entre eles o dono da Havan, uma loja de departamento à nível nacional, famosa por ter sempre em frente de suas lojas uma réplica da Estátua da Liberdade, Luciano Hang, abertamente apoiador do candidato.

Dentro da reportagem, é citado que empresários estariam financiando o envio de notícias falsas (fake news) via aplicativos de mensagens, estas que viriam a denegrir a imagem do candidato adversário, Fernando Haddad, e sua vice, Manuella d’Ávila. O envio era feito por empresas privadas especializadas em mídias digitais, eram de aspecto duvidoso ou enganoso, distorcendo a verdade ou não tendo comprometimento nenhum com a verdade; o evento, analisado pela ciência comportamental, afirma que o sujeito, que é convicto no que acredita, tende a não mudar sua opinião mesmo que lhe sejam apresentando fatos de que suas crenças podem também ser tidas como fantasiosas e irreais.

Pode-se observar, no espectro político brasileiro, que o antipetismo foi um forte impulsionador da candidatura de diversos políticos, Jair Bolsonaro é um deles. E, para entender como isso se dá, deve-se observar o espectro político dos últimos anos. O impeachment da Presidenta Dilma Rousseff foi o estopim para o crescimento exacerbado da direita ultraconservadora brasileira, criticando os esquemas de corrupção nos quais o Partido dos Trabalhadores é acusado; os esquemas que foram televisionados tiveram como influencia o fenômeno da agulha hipodérmica, que penetra no pensamento daqueles que a escutam mesmo que de forma involuntária. Tal fenômeno dá-se por conta da repetição das notícias e da forma como são tratadas: quase todas iguais e sobre os mesmos fatos.

Por isso, viu-se a urgência em financiar o envio de mensagens falsas ou distorcias sobre o adversário e trataram de fazer isso de diversas formas diferentes, porém apresentando os mesmos padrões: mensagens alarmantes, que ferem com diversos princípios da família tradicional brasileira e têm como principal objetivo ferir com a relação do trabalhador com o movimento trabalhista.

Durante o governo Nazista alemão, o publicitário do partido, Joseph Goebbels, utilizou de vários métodos adotados pela campanha “PSLista”, como o inimigo único; simplificou a ameaça, neutralizando-a e atacando-a de forma constante e direta. Utilizou amplamente o princípio da orquestração: ampliando um boato até que seja transmitido pela imprensa oficial. O que foi o caso do Kit Gay, que precisou ser desmentido pelo órgão máximo da educação no Brasil, o MEC.

Dentro desse aspecto, a semelhança entre a publicidade de Bolsonaro e Putin dá-se por fazerem com que o meio aliene-se acreditando veemente no que lhes é dito e não naquilo que condiz com a verdade. Exemplo disso foi a repercussão em cima dos shows performados por Roger Waters, ex-membro do grupo de rock progressivo Pink Floyd, que fez sucesso durante a época dos regimes autoritários na Europa.

(foto: Reprodução/Twitter)

Durante seu show em São Paulo no meio da campanha do primeiro turno, Roger posicionou-se contra Bolsonaro e o colocou na lista de “Neo-fascistas”, junto com Vladmir Putin, Donald Trump, Sebastian Kurz e Marine Le Pen; poucos dias depois do acontecido, Sérgio Sá Leitão, ex-ministro da Cultura de Temer e atual Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, acusa Roger de ter recebido 90 milhões de reais para se posicionar contra o presidenciável em seus shows e criticou a acusação feita pelo jornal Folha de S. Paulo de que Bolsonaro tenha recebido dinheiro de caixa dois.

A partir disso, podemos ver críticas sem fundamentos factuais são comuns em época de eleição, porém, diante de um enorme fluxo e nível de compartilhamento de tais falsidades, é possível que haja a influência dos menos favorecidos na corrida eleitoral.

Hoje, no Brasil, não existe nenhum tipo de punição para o compartilhamento e criação de boatos, e, segundo Ronaldo Lemos, a pena por crimes como esse serão tratados pelo Código Penal como injúria, calúnia ou difamação. O ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luiz Fux já se mostrou favorável ao combate à Fake News e, em conjunto com a Ministra do Superior Tribunal Federal e atual presidente do TSE Rosa Weber, vem trazendo novas formas de punir aos seus criadores, mas, mesmo assim, não se mostra eficaz.

A vitória nas urnas

No dia 28 de outubro de 2018, o candidato Jair Messias Bolsonaro (PSL) venceu a campanha presidencial. As fake news não pararam após a eleição. Pouco depois de ser eleito, no dia 12 de novembro, o Presidente postou em sua conta oficial do Twitter uma indicação de canais no Youtube para que “as pessoas fiquem informadas”. Os canais foram: Embaixada da Resistência, Nando Moura, Diego Rox OFICIAL e Olavo de Carvalho.

Em algum momento, todos esses canais já foram acusados de espalharem fake news e o acontecimento mais recente se deu quando o Youtuber Nando Moura afirmou em um vídeo seu que o ex-Secretário Geral da URSS havia ganho o Prêmio Nobel da Paz duas vezes, em resposta a indicação do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Esse mesmo influenciador digital teve seu canal desmonetizado pelo Youtube por conta de suas notícias falaciosas e mentirosas.

Ao se analisar que o governo Bolsonaro é formulado em cima de notícias que foram desmentidas ou que são apenas meias verdades; é preocupante a existência de tal forma de governo já que, nos dias de hoje, com o crescimento do jornalismo independente e das agências de checagem de fatos temos muito mais acesso à informação verdadeira do que anos atrás, quando tínhamos apenas o jornal impresso ou o telejornal para que fossem veiculadas as informações.

A atual conjuntura política brasileira é propícia ao surgimento desse fenômeno, já que, com a mídia em desmerecimento pelo atual poder e com o quase total descaso dos grandes meios de comunicação em massa, tais como Facebook e Twitter, se fez capaz de criar-se uma mídia alternativa comandada pela deputada federal Joice Hasselmann.

No dia 23 de fevereiro, foi publicada pelo jornal The Intercept uma reportagem sobre a formação de um dos ministros do Bolsonaro, Ricardo Salles, que, desde 2012, vem se apresentando como mestre em Direito Público pela Universidade de Yale, mas que, na verdade, nunca sequer chegou a ingressar no curso. O mesmo aconteceu com a ministra Damares Alves, que afirmou ser formada em Direito constitucional e Direito da família, e também mestre em Educação, mais tarde desmentida por ela mesma afirmando que “Deus a formou”.

Como é possível um governo, em plena era da informação, transformar-se em um trem descarrilhado pronto para bater em uma parede de concreto? É bastante visível que esse governo tem traços fascistas que preocupam aqueles que sabem diferenciar, mas que seduz aqueles que não têm a preparação acadêmica para saber a diferença. É extremamente prejudicial para a democracia manter um sistema falho como esse, onde o presidente desmerece todos os meios de comunicação, menos aqueles que o apoiaram, e utiliza de meios sociais para se comunicar. Podemos ver que, ao redor do mundo, o fascismo cresce como uma árvore de raízes profundas que precisa ser derrubada e queimada até o fim. É preciso que o jornalismo independente seja propagado e as pessoas tomem consciência do que está acontecendo, a verdade pede socorro.

2 comentários em “Opinião: A verdade pede socorro

  • 17 de abril de 2019 em 23:16
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    Que texto! Bem escrito, bem argumentado, bem fundamentado.

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