Pensar é grátis

Texto: Andreza Iris

As eleições de 2014 no Brasil foram marcadas por terem separado o país por opinião. No mesmo ano aconteceu o estouro da Lava Jato, a Petrobras quase quebra, Dilma ganhou as eleições, a crise chegou e o brasileiro, que mal sabe interpretar um texto, virou cientista político. O país virou um grande estádio de futebol, construído para a Copa, de um lado temos a Direita, no seu camarote, do outro, a esquerda, segurando firme e forte o ventilador e dividindo o churrasco de gato. Um com a sua hipocrisia e imagem distorcida do que é o país, outro, em sua grande maioria com a educação precária, e vivendo a realidade de perto do que realmente é o país.

Coxinhas e mortadelas, batalhando para ver de quem é a culpa. Se é do PT, do Lula, ou do PSDB e do Temer, o golpista. Na verdade, eu acho que as pessoas não estão procurando os culpados em sí, apenas querem achar alguém que possa sustentar sua opinião e lhe dar razão, é tipo os coxinhas utilizando o Lula como exemplo de seu ódio, e os mortadelas, utilizando o Temer, como justificativa para seu ponto de vista. A culpa mesmo ninguém quer saber de quem é, todos querem apenas a razão.

Ninguém se pergunta como as pessoas que estão sendo investigadas chegaram ao poder? Ninguém se pergunta de quem foi o voto? O voto foi nosso, isso já basta. A cada quatro anos somos nós que vamos às urnas, seja você coxinha ou mortadela. A cada quatro anos, vendemos nossos votos, por um salário maior, um direito a mais garantido em um papel, porque no Brasil é assim, o direito tem que ser assegurado por lei, seja ele básico ou necessário. A cada quatro anos somos nós que votamos e escolhemos errado nosso representante.

É muito importante lembrar que o direito à liberdade de expressão não está sendo negado às pessoas, o que está sendo questionado é: Onde está a nossa credibilidade para conversar sobre política? O que leva o brasileiro a transformar tudo em um jogo de futebol? Se o país inteiro não deixar de lado o extremismo baseado em sua ideologia, vamos acabar elegendo babacas para o comando do nosso lar. Como já fizemos e tornamos a repetir o erro tantas vezes que perdemos a conta.

A corrupção tem que acabar onde começou. A maioria do povo brasileiro não são políticos, são pessoas comuns, que trabalham, estudam e têm família, mas também são corruptos. Furam a fila do ônibus, negam cadeiras aos preferenciais, mesmo esse direito sendo assegurado por lei. A maioria dos corruptos não estão em Brasília, lá está apenas o reflexo de um povo. No Brasil inteiro estão os corrompidos. A romantização do jeitinho brasileiro é o que me deixa pasma, um povo que é reconhecido por burlar as regras, tentar se aproveitar de qualquer oportunidade que tiver, para tirar proveito do próximo e lutar com unhas e dentes para retirar da sua alma e governantes a corrupção, é uma tamanha hipocrisia.

      De certa forma, nós possuímos duas síndromes gravíssimas, a síndrome do jeitinho brasileiro e a do vira-lata. O jeitinho brasileiro, segundo Darcy Ribeiro, devido a burocracia que vivemos, é que sempre encontramos um jeito de burlar as regras e alcançar nossos objetivos, mas essa forma de nos comportarmos tende a ser de caráter duvidoso, ou pode prejudicar o próximo de forma direta ou indireta. Já a síndrome do vira-lata, que se refere a forma como criticamos nosso país, faz com que pareça que ele seja o pior lugar do mundo, as qualidades que possuímos são por incontáveis vezes esquecidas, para o brasileiro, o bom está lá fora, e pensamos que o pior povo que pode existir vive aqui.

Lembramos apenas disso, já que a nossa melhor parte também veio de algo ruim, a mistura, a diferença e igualdade surgiram do mesmo berço e não tomaram caminhos diferentes. A forma como “politicamos”,  como vivemos, as nossas marcas, o nosso jeito de acolher e repudiar tudo na mesma intensidade, de cuidar um do outro e de maltratar em dobro, quase triplicando a dor alheia, veio apenas de um lugar, nosso passado. Fomos escravizados, mortos, estuprados, humilhados, esquecidos… E, quando enfim, conseguimos nossa liberdade, a liberdade tão desejada veio com um preço alto. Afinal, o que vamos fazer com ela? Não temos para onde ir… A nossa vida foi roubada a partir do momento em que os índios se encantaram com os brancos.

Ipiranga Jamille

Ipiranga Jamille

Sou muitas, sou única, sou todos. Grata a Deus pela dádiva da vida, de ser mãe da Letícia e do Paulo Filho, de ser a amada do Paulo Franco, e curtindo, muito, me tornar jornalista...

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