REPORTAGEM ESPECIAL | ELEIÇÕES

Texto: Higor Freire

Os percalços da eleição presidencial
Pesquisas eleitorais seguem como uma verdadeira incógnita na variável de candidatos e instabilidade partidária.

Na última pesquisa lançada pelo Instituto Datafolha, 11/04, Lula liderava o cenário no 1º turno (mesmo estando preso em Curitiba) com 31%, seguido por Jair Bolsonaro, 15%. Marina Silva permanece no páreo com 10% e em uma visão de eleição sem Lula, Marina chega a 15% empatando com Jair Bolsonaro dentro da margem de erro. À época, Joaquim Barbosa possuía 8%, hoje Joaquim segue fora da pretensão de concorrer, quando admitiu desistência no mês passado.

 

Agora o país segue com uma inconstante perturbadora: quem será o próximo líder, o próximo chefe de Estado? E mais importante do que isso, é: terá resistência, autoridade, saberá caminhar no (deplorável) congresso e fazer um bom governo? Infelizmente, não há quem já tenha essa resposta. Lula não irá concorrer na eleição por motivos óbvios. O tempo do Partido dos Trabalhadores segue passando e, com ele, indo embora a oportunidade de mostrar um novo candidato (Fernando Haddad), além da tentativa de apostar em uma linguagem mais conciliadora com o país. Ainda não caiu a ficha para o PT que eles, e o senso comum de uma parcela da sociedade, não andam mais em perfeita sintonia com o partido. No entanto, é preciso seguir em frente e mostrar uma nova cara para a sociedade, um novo candidato.

 

Um fator preocupante é Jair Bolsonaro ocupar o segundo lugar no índice, sendo ele um político de linguagem e gestos agressivos, sem um projeto de país robusto e que odeia a democracia e a pluralidade cultural brasileira, estando nela presente a comunidade gay, militantes negros, empoderamento feminista e uma (pouca) maior tolerância às mais diversificadas religiões. O país mudou muito de 2014 pra cá, o entendimento das pessoas sobre a liberdade do próximo se ampliou e isso está presente o tempo inteiro na mídia e em jornais que antes eram tidos como conservadores. Bolsonaro não seguirá com essa vantagem por muito tempo, será massacrado com todas as propagandas eleitorais das mais variadas coligações. E é bem provável que ele por si só destrua a sua imagem como tem feito em todos esses anos.

 

Marina Silva possui uma imagem considerada honesta e íntegra por boa parte de brasileiros, mas ainda assim, a cada eleição que passa, sua popularidade diminui, tendo em vista o pouco ativismo em questões consideradas importantes, debates que necessitam da presença e do diálogo dos demais presidenciáveis. Por vezes, adotar uma estratégia mais crítica e excludente, afasta ainda mais o apoio político e eleitoral do que agrega. Entretanto, as pesquisas ainda podem gerar surpresas se tratando da candidata.

 

Outro nome curioso e excêntrico, por se dizer no mínimo, é o pedestista Ciro Gomes, com 5% nas pesquisas. É confortável falar que talvez Ciro seja o pré-candidato que mais trabalhou em prol de sua candidatura em 2015, no início da crise instalada no governo Dilma, até os dias de hoje. Ciro possui grande conhecimento e experiência econômica em nível estadual no Ceará, desde que foi ministro da fazenda no governo de Itamar Franco, onde trabalhou ativamente na implantação do Plano Real. Porém, a sua pouca segurança e falta de controle emocional sabotam a sua imagem, que é conhecido por atitudes destemperadas, e será algo usado exaustivamente por seus concorrentes. Resta saber como ele conduzirá o debate e o tato com a oposição.

 

O tucano Geraldo Alckmin (atual governador de São Paulo) está com 6% nas pesquisas. Por pertencer ao PSDB, e ao histórico das eleições dos últimos 20 anos, é natural que essa porcentagem deva crescer, pois o PSDB, seja qual for o candidato, sempre representou uma parcela importante dos eleitores ditos de direita. Mas, hoje, a direita está fragmentada, tendo em vista quando entra em jogo um candidato de extrema direita, como Jair Bolsonaro, e um outro que representa uma nova política e uma direita considerada mais “centro”, João Amoêdo, do Partido Novo. O desgaste dos tucanos, principalmente do senador Aécio Neves, e o mandato pouco popular de Alckmin, será algo explorado pelos demais candidatos, entretanto, há grandes chances de Alckmin e o PT estarem mais uma vez no segundo turno.

 

Por último, uma escolha curiosa foi o lançamento da candidatura do Palácio do Planalto, com participação de Michel Temer, ao nome de Henrique Meirelles (filiado ao MDB), atual ministro da fazenda. Temer teve insucessos quando tentou se promover e testar a população quando sinalizava que poderia vir como candidato. Tornava-se uma expectativa frustrada, pois sempre era sucedido de algum escândalo envolvendo corrupção ou algum contratempo na área econômica. Meirelles é realmente uma mente dourada quando se trata de economia e liderar uma equipe, não sendo possível ver seu protagonismo na equipe de Temer por estar inserido num ambiente conturbado, inapto, sem rigor político com o congresso e o agravante da não legitimidade do presidente, dificultando a tomada de atitudes consideradas não populares. Henrique Meirelles foi o presidente do Banco Central durante os 8 anos de governo Lula, afastou-se de Brasília quando Dilma Rousseff assumiu o planalto e não teve interesse em lhe nomear para nenhuma pasta (na verdade Dilma o tinha secretamente como um desafeto).

 

Em meio a uma forte crise política e alto número de desempregados (acima dos 13 milhões), carregamos nas costas, desde a última semana, a crise dos caminhoneiros e a realidade abusiva do preço dos combustíveis. É desastroso e entristecedor pensar que a descoberta do pré-sal, e todo o seu lucro, serviu mais para encher o bolso dos envolvidos na Lava Jato que para proporcionar uma estabilidade de preço digna à sociedade brasileira. Somos donos de uma assustadora reserva de petróleo e incapazes de produzir nossa gasolina e diesel. Se Lula e Dilma, considerados competentes e, os maiores administradores que esse país já teve, não tiveram êxito em ao menos proporcionar uma Petrobras séria, por que agora toda culpa recai sobre Michel Temer?

 

As crises são muitas, a descrença no sistema cresce, os heróis estão por todo lado como verdadeiras ofertas em prateleiras. A necessidade de um grande líder precede de uma seriedade e estudo ímpar de saber em quem os eleitores devem votar. Será desde 1989 a eleição mais permeada de factoides e pouca estrutura esclarecedora sobre os personagens presentes na corrida eleitoral. O povo sofre e a classe política se abraça aos risos.

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