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Uma viagem no tempo localizada no interior do Ceará

Museu da Senzala Negro Liberto Foto: Beatriz Texeira

Há 135 anos, o Ceará entrava para a história. A vila do Acarape, como era chamada a cidade de Redenção na época, foi a primeira do Brasil a abolir a escravidão. Chegou a receber uma carta do Imperador Dom Pedro 2º, parabenizando o município pela iniciativa de libertar os escravos. A abolição ocorreu por meio de um decreto municipal, no dia 1º de janeiro de 1883, cinco anos antes da Princesa Isabel assinar a lei Áurea e um pouco mais de um ano antes do presidente da província do Ceará, Sátiro de Oliveira Dias, libertar todos os escravos no dia 25 de março de 1834,

Inaugurado em 2003 pelo proprietário Hipólito Rodrigues Lima, o local abriga a fábrica da cachaça Douradinha e Cearense. O Museu da Senzala Negro Liberto, como é chamado fica localizado em Redenção, CE, e é apenas um dos muitos lugares espalhados na cidade que contém um pedaço desse passado escravocrata, sendo constituído pelo casarão, senzala, canavial, armazém, antigo e novo engenho. É um local repleto de histórias e curiosidades.

 

Tour no museu

 

Senzala   Foto: Beatriz Texeira

Ao chegar ao museu, o visitante é recebido por um guia que vai levá-lo por todas as partes do lugar, começando do antigo engenho desativado, passando pelas salas dedicadas aos antigos donos, a cozinha, a sala de telégrafos e a varanda.

Logo após esse tour pelo casarão o visitante irá conhecer a área mais obscura do local: a senzala. Nela o guia vai contar como era a vida dos que viviam ali, além disso ele vai mostrar objetos de tortura que eram usados pelo senhor de engenho para castigar os escravos. Após a visita na senzala, o visitante é levado à cela das mucamas, no canavial e por fim irá conhecer o “Mercado da sinhá”, onde é vendido desde sorvetes até as cachaças produzidas na propriedade.

 

Senzala Foto: Beatriz Texeira

Na senzala o visitante irá se deparar com um ambiente escuro e triste. O guia irá falar sobre cada área do local e as situações vividas ali. Começando pelo primeiro local de castigo, onde os escravos ficavam presos ao instrumento de tortura chamado vira-mundo (objeto metálico que prende a mão direita com  o pé esquerdo e a mão esquerda com o pé direito), mais a frente o visitante é levado ao tronco, outro modo de castigo, a partir disso visita-se a área onde tem gargalheiras, (objeto de ferro que prende a cabeça e o pescoço do escravo, dificultando a sua alimentação), correntes e até um instrumento de tortura para crianças. A senzala tinha uma passagem para a casa grande, que servia para o coronel escolher as escravas mais belas e colocarem elas na cela da mucamas, onde ficavam 10 mulheres que trabalhavam no casarão e eram abusadas pelo dono do local.

 

História

Durante a visita ao museu o guia Railson da Silva, que trabalha no local desde 2015, conta aos visitantes uma história bastante curiosa sobre uma escrava que era ama de leite, e cuidava do filho do coronel. “Ela tinha o costume de amamentar o bebê na varanda da casa e certo dia, descuidou-se e o deixou cair, a criança faleceu na mesma hora. Como castigo a mulher foi levada ao tronco para ser chicoteada e logo após isso era trazida à cozinha para ser queimada uma parte do corpo no fogão à lenha. Essa situação foi mantida por uma semana até que o coronel a enterrou viva no chão da senzala. O proprietário do museu tem receio de escavar onde se localiza a cova da ama, pois pode danificar o local”, disse Railson. E essa é só umas das curiosidades do casarão que os guias contam ao pé da letra para todos que visitam a propriedade.

O processo de abolição dos escravos no brasil ocorreu de forma lenta, primeiramente em 1850 com a Lei Eusébio de Queirós que proibiu o tráfico internacional de escravos para o Brasil, anos depois em 1871 a Lei do Ventre Livre, que considerava livre os recém nascidos das escravas a partir da data da lei, logo após em 1885 veio a Lei dos Sexagenários, que libertou os escravos com mais de 60 anos de idade e, por fim, em 1888 a Lei Áurea, que deu alforria à todos os escravos do Brasil. Entretanto quando esse processo terminou, as pessoas libertas não receberam nenhum tipo de indenização dos patrões ou do império, o único benefício foi a carta de alforria.

A historiadora Ozângela Arruda falou um pouco sobre a questão da escravidão no Brasil, e disse que “A escravidão foi um dos grandes males do mundo. Um país que tenha passado por um processo de colonização alicerçada na escravidão africana, traz em suas raízes consequências catastróficas. O Brasil é um exemplo desse cenário. As consequências desse processo podem ser vistas até hoje, não só a formação da sociedade brasileira, como também na construção da nossa identidade”.

A historiadora também abordou sobre a abolição dos escravos, que como dito no início, a cidade de Redenção foi a primeira a libertá-los. “Ao longo do século XIX, as medidas para a escravidão maquiaram o processo de baixa na economia escravista. Sem valor não eram mais necessários. Os anos de 1880 trouxeram a tão esperada abolição. Oficialmente, o processo chega ao fim, mas as agruras continuaram intensamente. Foram jogados ao mundo sem possibilidade de mudanças e, até hoje, seus descendentes sofrem pela herança de seu sangue e sua cor”, disse ela.

A visita ao museu proporciona ao visitante uma viagem no tempo do período imperial

 

Serviço

Local: Acarape – CE

Funciona todos os dias da semana

Horario: 8 hrs ás 17 hrs

Gratuito