Luiza Travassos inspira meninas na Internet

Texto: Kauanny Lemos

A jogadora, além de destacar-se no futebol, defende a representatividade feminina nos campos

Foto Reprodução: Instagram @laispatriciofoto

Em um perfil do Instagram, um feed predominantemente verde, uma garota com cabelos presos na tiara e olhar fixo na bola. Pelas redes sociais percebe-se, logo, a paixão notória pelo futebol. Aos nove anos decidiu largar o balé e entregar-se à bola e aos gramados.

Dentro dos campos, Luiza é destaque no futebol júnior. No final de 2018, estreou no Fluminense e após um mês de treino jogou para a Liga de Desenvolvimento da Confederação Sul-Americana de Futebol — Conmebol, na categoria Sub-14. O time foi para a final, quando perdeu nos pênaltis para o Centro Olímpico, atual vencedor da Sul-Americana. “Esse ano também disputei o Brasileiro Sub-18, ficamos em líder na primeira fase do Campeonato, mas saímos na segunda fase”, informou a jogadora. Segundo ela, a equipe ainda tem muito desafios pela frente, afinal, estão juntas a menos de um mês. “Mas a integração da equipe é muito forte e vamos em busca de muitas conquistas para 2019”, observa Luiza.

Para quem vê Luiza jogando desde cedo, não imagina que a decisão partiu dela mesma. “Eu que falei, eles não entendem nada de futebol”, conta sobre os pais. No entanto, reconhece o apoio que recebe de Valéria e Roberto Travassos. Ambos fazem questão de acompanhar os jogos da filha. “Quando é fora do Rio fica mais difícil, mas os últimos jogos foram transmitidos pela Internet e eles assistiram tudo”, diz Luiza

Quando indagada sobre o início da vida desportiva, a carioca responde que tinha sete anos quando começou a animar-se para jogar e logo, pediu a mãe, porém, sem sucesso. No entanto, percebendo que a menina não desistiria fácil, Valéria, a mãe, atendeu ao pedido.

No ano seguinte, ao matricular a filha recebeu um recado de que “menina não podia jogar com menino”. Descontente, Valéria escreveu à diretoria alegando que “aquilo era preconceito e que a escola tinha o dever de apoiar a igualdade”. “Não sei se foi isso, mas no ano seguinte eles liberaram a participação das meninas”, relata Luiza.

A garota com mania de jogar bola, também tem participação ativa na mídia. Na escolinha do PSG Academy, no Rio de Janeiro foi jogadora e também repórter mirim. Mas o reconhecimento que tem hoje começou a partir da página no Facebook, Futblog – a menina que joga futebol. Desde então tem ouvido as histórias de preconceito com garotas que sonham em jogar futebol. Ela lembra que já viveu situações parecidas que a incomodaram, porém, agora prefere “responder no campo”. O ativismo de Luiza Travassos nas redes sociais rendeu frutos. Em 2107, foi chamada para participar de um documentário da BBC de Londres sobre sexismo no esporte.

Ela relembra que ficou muito emocionada: “Um dia uma jornalista da BBC de Londres me enviou uma mensagem na minha página do Facebook”. A jovem jogadora não esperava que projeto tomasse maiores proporções e que um dia estaria ao lado de nomes experientes do esporte como Bia Vaz, ex-jogadora da Seleção Brasileira e Fernanda Nunes, medalhista olímpica, do Remo. “Achei que seria uma coisa pequena, nunca imaginei que viveria momentos tão especiais”, recorda.

“Foi muito especial. Foi dirigido pela equipe da BBC de Londres, pessoas bem legais que mantenho contato até hoje. Todas mulheres. Elas ficaram aqui no Brasil durante uma semana, e fizemos várias gravações. Uma roda de debates ao vivo para a rádio BBC em Londres. Na praia, jogamos com uma equipe de futsal numa faculdade da PUC Rio, no campo com meu time e o mais emocionante foi gravarmos dentro do gramado do Maracanã. Foi a primeira vez que pisei naquele campo, foi maravilhoso”, descreve Luiza sobre a experiência.

Para a surpresa maior de Luiza, no final de 2017, ela integraria a lista das 100 mulheres de destaque pela BBC. No momento em que foi noticiada pela jornalista sobre escolha, a jovem não deu tanta importância. “Eu tinha 13 anos e nem liguei muito, achei que ela só estava animada porque íamos nos encontrar naquela semana”. Ainda hoje, Luiza pergunta a si mesma como foi parar naquela lista. “Como pode? Eu só fazia o simples, apenas compartilhava o meu dia a dia no futebol, contava minhas dificuldades e conquistas. Sou muita grata por esse reconhecimento, nunca vou esquecer”, recorda a atleta.

A menina, que joga futebol desde cedo, encontrou seu propósito. Seja através do blog, de palestras, projetos sociais ou mesmo em campo, Luiza levanta a bandeira de que futebol é para todos, não importa o gênero. Se o preconceito ainda é visível, ela preferiu dar ouvidos à liberdade de ser quem ela é e jogar “como uma garota”. E assim, ela vai se tornando um exemplo, uma inspiração. Quanto ao prejulgamento de mulheres em jogos que exercem força física no Brasil, a história pode explicar. Há quatro décadas, o esporte era considerado uma prática contraria à “natureza feminina”.

Promulgado por Getúlio Vargas em 14 de abril de 1941, durante a ditadura do Estado Novo, o artigo 54 do decreto-lei 3.199, afirmava que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

O livro, originalmente escrito como uma dissertação de mestrado “Mulheres Impedidas: A proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo”, de Giovana Capucim e Silva traz um estudo profundo sobre o tema. Ela desvenda que a resistência do Estado, por vezes, era o menor obstáculo. “Os olhares e comentários repressores recebidos das famílias, amigos e companheiros (as) podiam pesar-lhes muito mais do que qualquer resolução de órgãos estatais”, escreve a historiadora.

Para Luiza, o cenário ainda não é favorável e explica que o país perde com a falta de investimento. “O esporte poderia ser caminho para muitas meninas estarem dentro da escola e até irem para universidade com bolsa atleta”, diz. Mas, não desanima. Mesmo ciente dos obstáculos que ela e outras meninas poderão enfrentar, a jovem influenciadora, continua a fazer sua parte nessa história de superação e reconhecimento.

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