O que está acontecendo no Equador?

Texto: Erico Cardoso

Lenín Moreno declarou Estado de Exceção e toque de recolher para conter os manifestantes.

Lenín Moreno em Setembro, discursando em Assembléia Geral da ONU Foto: Jason DeCrow/AP Photo

Desde o dia 1º de outubro, o Equador sofre com uma onda de protestos contra as medidas de seu atual presidente, Lenín Moreno que, eleito através do voto direto com o apoio do antigo presidente Rafael Correa, aplicou diversas mudanças sociais e econômicas no país que prejudicam a classe trabalhadora. Segundo os sites de notícias Reuters e Al Jazira (الجزيرة), Moreno suspendeu, com a autorização do Fundo Monetário Internacional (FMI), os subsídios para diesel e gasolina, que, aumentaram, respectivamente, cerca de 20 e 100%, causando revolta aos que dependiam diretamente do combustível.  A justificativa do presidente para as medidas é a necessidade de contenção do déficit fiscal do país.

As primeiras respostas às medidas vieram dos sindicatos ligados aos transportes, que tiveram impacto direto com a suspensão dos subsídios. Os preços de alimentos e itens básicos sofreram impacto direto dos protestos, seja por especulação dos revendedores ou por escassez. Logo depois, lideranças indígenas de grande atuação no país, como a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE) e organizações estudantis aderiram aos protestos.

Com os movimentos já organizados, Moreno, acuado pela força popular, decide instaurar Estado de Exceção durante dois meses, podendo suspender direitos civis, bloquear áreas públicas (como prédios, ruas, avenidas e estradas), fechar aeroportos e também censurar a imprensa. Também em resposta aos movimentos, mudou a capital do país de Quito para Guayaquil, já que essa era a cidade alvo dos protestos.

O presidente sofre com a pressão popular, mas já declarou que não voltará atrás nas decisões e vem respondendo violentamente aos manifestantes. Vídeos que circulam em redes sociais filmados por manifestantes mostram pessoas sendo jogadas de cima de viadutos, SNIPERS atirando de cima de prédios e caminhões militares atropelando civis.

Manifestante atira coquetel molotov contra forças de segurança — Foto: Ivan Alvarado/Reuters

O CONAIE, Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador, contabilizou 554 feridos, 929 prisões e 5 mortes. Todos esses dados foram contabilizados em 9 dias de protestos. No sábado, dia 12, usuários do Twitter relataram a suspensão do canal de televisão Telesur, um dos principais meios de comunicação do país.

Para entender a fundo o motivo das reformas, precisa-se ter em mente que o Equador sofre com uma crise financeira há bastante tempo e, por isso, Lenín pediu um empréstimo de US$4,2bi ao FMI. Segundo ele, esse empréstimo, junto com a suspensão dos subsídios, ajudará a reduzir a crise econômica. O incentivo fiscal sobre os combustíveis está em vigor desde 1970.

O FMI é uma entidade que diversos países emergentes recorrem quando em crise e buscam empréstimos bilionários com taxas de juros exorbitantes.

Moreno também acusa o ex-presidente, Rafael Correa, de comandar as manifestações de seu exílio na Bélgica, e, em resposta, Correa afirma, em entrevista à Reuters, que “(É absurdo) dizer que sou tão poderoso que com um iPhone em Bruxelas eu poderia liderar os protestos”. “Se necessário, voltarei (ao Equador). Eu teria de ser candidato a algo, por exemplo, a vice-presidente”, completa.

O desprezo de Moreno por diretos humanos e questões sociais mostram, mais uma vez, que os países sul-americanos estão sempre como capachos do imperialismo norte-americano e suscetíveis a ditaduras sanguinárias em nome do capital. O povo equatoriano mostra-se vil em face ao autoritarismo de Moreno e também disposto ao diálogo, como afirmou a CONAIE, entidade frente aos movimentos.

 NOTA DO EDITOR: O texto foi escrito na madrugada do dia 13 de outubro, quando o Presidente Lenín Moreno ainda não havia recuado sobre a suspensão dos subsídios. A notícia de que ele o havia feito foi vinculada pelas mídias locais apenas na segunda, 14. Por decisão, deixá-lo-ei como estava por não haver certezas sobre o assunto. O desenrolar da história será novamente abordado quando houver necessidade. (Fortaleza, 15 de outubro de 2019)

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