Subversivo internacional: Julian Assange e sua prisão

Texto: Erico Cardoso

 

HISTÓRIA

Imagem: gnuckx,/Flickr

Julian Paul Assange é um cyber ativista australiano e é cofundador do site de vazamento de dados WikiLeaks. Sua infância não foi fácil, passou por 37 escolas diferentes e era tido como a ovelha negra; mais tarde, revelou em uma entrevista que gostava de passar por tantas escolas. Sua mãe, depois de separar-se de seu pai, começou a se relacionar com um sujeito muito mais novo que ela, que fazia parte de um culto, forçando-os a viver como fugitivos pelos próximos anos. Com 13 ou 14 anos, começou a mexer com computadores em uma lojinha de eletrônicos do outro lado da rua. Aprendeu o Commodore 64, depois aprendeu códigos. A escola não era muito interessante para Assange, já que sua mente não trabalhava da mesma forma que as outras crianças; interessava-se por outras coisas além do que a escola poderia ensinar, então foi matriculado em um curso para crianças superdotadas em Melbourne, onde encontrou o gosto por hackear.
Em 1991 era possivelmente o hacker mais bem-sucedido da Austrália e junto com mais outros dois colegas, fundou o grupo International Subversives. Uma de suas primeiras façanhas foi montar uma revista, não muito bem-sucedida já que somente o grupo tinha acesso a ela, sobre como burlar o sistema telefônico e realizar ligações gratuitas. Não muito depois conseguiram acesso ao sistema militar norte-americano, MILNET, o qual, segundo ele, mantiveram total controle por dois anos. Além de também hackearem o sistema da Universidade Nacional da Austrália.
Aos 18 anos foi pai do pequeno Daniel, a mãe era sua namorada que conheceu na escola para superdotados. Nesse mesmo ano, seus problemas de saúde mental se agravaram e, quando foi preso pela polícia australiana, acabou sendo internado com depressão. Em 1996, confessou ser culpado por 24 atos de invasão, e a Corte de Melbourne o reconheceu como o mais talentoso e ativo membro do grupo. Depois do julgamento, foi condenado brandamente e ganhou a guarda de seu filho. Criava-o sozinho e desempregado, apenas com uma pensão do Estado para pais solteiros.
Acreditava que havia sido injustamente condenado, criou um blog (iq.org) onde debatia sobre necessidade e exterminação da injustiça no mundo; “Quão mais secreta e injusta uma organização é, vazamento de informação vai causar mais pânico e paranoia em sua liderança e comité de planejamento. Como sistemas injustos, por sua natureza, cativam inimigos, […], vazamentos em massa deixam-nas mais suscetíveis e vulneráveis para aquelas que buscam novas formas de governo.”, disse em uma de suas postagens.
Depois de anunciar o surgimento do WikiLeaks em 2006 para possíveis apoiadores, que não tinha somente ele como fundador, viajou no ano seguinte para Nairóbi, no Quênia, para o Fórum Social Mundial onde divulgou para o mundo o surgimento do site. Estava tão feliz com o que ele chamava de “a maior festa não-governamental do mundo”, que passou dois anos na cidade juntamente com Médicos Sem Fronteiras e outros grupos internacionais.

COMO FUNCIONA O WIKILEAKS

WikiLeaks funciona como a Wikipédia. Cada um que tenha a informação pode ir lá e depositá-la. É necessário usar o software Tor, que é responsável pelo seu anonimato na rede; munido com o que você acha relevante o suficiente para ser postado, basta clicar em “submeter” e pronto! O apreço pelo anonimato é o forte do site. Nunca, segundo Assange, houve divulgação de suas fontes e ninguém sofre represálias por postar vazamento de informações. Logo após a submissão, seguem informações sobre o que deve ser feito: 1- não fale com ninguém sobre o que foi postado, 2- Aja normalmente, 3- Apague os traços de suas submissões, 4- Você pode sofrer acusações legais.
A maioria dos países possuem legislação sobre a divulgação ilegal de arquivos secretos, o que faz da pessoa que os postam, uma criminosa. A busca pela verdade e democracia da informação é algo que Assange acredita e luta a sua vida toda. É possível ver, dentro do site da WikiLeaks, a capacidade de divulgação de atos governamentais antidemocráticos, como o ataque em Bagdá, divulgado em 2010, organizado governo norte-americano onde civis foram mortos, incluindo dois jornalistas do grupo Reuters. Logo depois da publicação do vídeo, diversos meios de comunicação o reproduziram e deram os créditos à fonte.
É claro que existem contratempos para os trabalhos da WikiLeaks, uma vez que funciona com a colaboração popular. É muito comum serem encontrados arquivos forjados, falsificados ou simplesmente manipulados, mas também existem denúncias verdadeiras e relevantes para a democracia da informação.
Nos Estados Unidos, em 1966, foi assinado o Ato de Liberdade da Informação pelo presidente Lyndon B. Johnson, que garantia a liberdade popular de acesso ao que antes era considerado como confidencial; no Brasil, a Lei de Acesso à Informação foi assinada somente durante o governo da Presidenta Dilma Rousseff, que permitia o acesso à informações governamentais de administração sem a necessidade de apresentar um motivo específico. Esses pequenos passos democratizam o acesso de civis ao que o governo de seu país faz, mas, ainda assim, não são divulgados de forma satisfatória para que todos saibam o que realmente existe por trás da cortina governamental.

RECENTEMENTE

O ativista Julian Assange, pouco depois da sua prisão em abril deste ano — Foto: Reuters/Peter Nicholls
Foto: Reuters/Peter Nicholls

Há sete anos, Julian Assange era acusado pela polícia sueca de abuso sexual, o que levou a justiça britânica a expedir um mandado de extradição. Assange encontrou uma alternativa de fugir da extradição ao pedir asilo político à embaixada do Equador na Grã-Bretanha; o asilo foi concedido e ficou lá, indignamente, por sete anos. Não tinha acesso a medicina básica, banhos de sol e, de alguns anos para cá, sua internet passou a ser restringida.
Foi preso no dia 11 de abril na embaixada equatoriana em Londres, onde os agentes foram convidados a entrar. O ex-presidente do Equador disse à mídia local que a prisão foi vingança do atual presidente, Lenín Moreno. Inicialmente, a polícia britânica motivou a prisão baseada no fato de que ele estaria quebrando com sua liberdade condicional ao buscar por asilo político, pouco depois os britânicos mudam sua versão e dizem que Assange foi preso por pedido dos Estados Unidos sob acusação de ter invadido computadores norte-americanos.
O motivo da prisão seria porque, em 2010, o WikiLeaks vazou cerca de 250 mil telegramas da embaixada norte-americana e também o vídeo de Collateral Murder. O soldado responsável pelo vasamento, Chelsea Mamning, está preso em solitária por recusar-se a testemunhar contra Assange. A prisão do cyber-ativista só foi possível porque Lenín Moreno revogou seu asilo político.
Algumas semanas antes da prisão, Assange havia vazado documentos comprovando casos de corrupção que Moreno estaria envolvido; o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, disse em entrevista à Publica, que o atual presidente sempre quis revogar o asilo político, e agora teve a desculpa perfeita. Correa considera a revogação do asilo ilegal, uma vez que Assange é cidadão equatoriano, além de considerar isso uma jogada inconstitucional.
Logo depois da prisão, o site de notícias Sputnik publica um artigo com uma entrevista de Correa dizendo que o presidente Lenin Moreno recebera um empréstimo de 4,2 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional para revogar o asilo político de Assange.

OPINIÃO

Assange é uma pedra no sapato de qualquer governo que não goste que todos saibam do que estão fazendo. Os EUA, durante anos, mantiveram sua política externa bastante escondida. Os ataques da Guerra ao Terror forjados, civis mortos, discriminação, culpabilização de todo um povo por atos terroristas de um grupo em específico; por anos mantiveram financiamento de ditaduras sanguinárias na América Latina e, em 2010, tudo isso veio à tona quando o site WikiLeaks divulgou a filmagem do bombardeio, intitulado Collateral Murder onde dois repórteres da agência Reuters morreram. Suas convicções políticas, seu conhecimento tecnológico e a forma como se sente desafiado a quebrar regras é uma das formas mais sinceras de rebeldia que podem existir.
A bandeira do WikiLeaks é a bandeira da liberdade, e quando Assange foi preso a estátua da liberdade perdeu sua força. A democracia é, sobre todas as coisas, a mais sincera forma de governo e o idealismo perfeito. Governos que escondem de seu povo são fadados ao fracasso; os EUA escondiam por anos dados de atrocidades cometidas em guerra, coisas que deixariam a convenção de Genebra boquiaberta e o WikiLeakes foi o responsável por divulgar isso para o mundo.
Essa divulgação não só foi o pontapé inicial para a democratização da informação, mas também para a queda de um dos maiores impérios de mentira do mundo. A manipulação por parte de todos esses presidentes, governos e generais do exército criou uma população extremamente patriótica, que, até em seus melhores governos, foram responsáveis por genocídios contra pessoas indefesas em nome de uma política petrolífera disfarçada de democracia.
Grupos de extrema esquerda, ONG’s, jornalistas buscando por verdade inspiram-se em Assange na luta pela liberdade e acesso à informação; sua prisão significa muito mais que uma simples acusação contra um hacker, significa a prisão de uma forma de pensamento e rebeldia.

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