Praia do Futuro avança em limpeza por meio de medidas socioambientais

Texto: Lyzlane Vasconcelos

As mudanças ocorreram a partir da aplicação da lei 10.340/2015, mas apesar da melhora, o território ainda enfrenta dificuldades com o lixo nas comunidades vizinhas a praia

Antes, andar na areia da Praia do Futuro, em Fortaleza (CE), era desafiador para os banhistas. O cenário apesar de contar com a beleza do mar era marcado pela grande quantidade de lixo acumulado. Em 2015, essa realidade começou a mudar com a aplicação da Lei do Lixo, nº 10.340/2015, que prevê fiscalização intensiva e multas mais altas a grandes geradores de resíduos. Passados quatro anos, o regulamento da prefeitura que faz parte do plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos tem gerado bons resultados e tornado o território praiano referência em limpeza.

A primeira medida após aplicação da norma foi a ação de 90 dias de fiscalização que concentrou primeira etapa no litoral leste da cidade, autuando dezoito barracas apenas nos dois primeiros dias de trabalho. A mobilização realizou atividades de sensibilização dos empresários e aplicação de penalidades que resultaram no aumento de 40% no número de tendas com coleta privada no local e acréscimo de 79% no volume de detritos recolhidos pelas empresas coletadoras.  

De 2015 a 2019, as cabanas ativas na praia passaram por processo de requalificação para se adequarem a Lei do Lixo, sancionada pelo atual prefeito, Roberto Cláudio, que define como grandes geradores, estabelecimentos que produzem volume igual ou superior a 100 litros de substratos por dia. Durante esse período, as companhias alimentícias readequaram-se e começaram a fazer o correto acondicionamento, transporte, armazenamento, recolha, tratamento e destinação dos rejeitos.

O supervisor de atendimento da barraca CrocoBeach, Cleilson Cruz, conta que a instituição já foi multada algumas vezes pelo órgão público e que depois das alterações na fiscalização mudaram de atitude. “Antes, não tínhamos tanta informação, agora cuidamos direito do lixo e temos tudo registrado: não só para evitar multas, mas porque aprendemos com o tempo a cuidar do meio ambiente”, destaca.   

Durante apuração da reportagem, foi constatado que dez das 12 barracas investigadas possuem contrato com entidades credenciadas pela prefeitura para colhimento das sobras de alimentos e documentação atualizada do Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos (PGRS), que classifica os procedimentos a serem seguidos para o descarte das impurezas. As outras duas instalações não foram enquadradas na contagem por serem de pequeno porte e não produzirem grande quantidade de lixo. Ao todo, existem em média 50 tendas no local.

Além disso, foi observado que as fundações comerciais aderem medidas socioambientais de conscientização dos clientes, separação de resíduos, utilização de bombonas (reservatório plástico resistente) e ambiente fechado longe da praia reservado para armazenamento do material inutilizável. 

De acordo com o coordenador especial de limpeza urbana da Secretária de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), Albert Gradvohl, a mudança no comportamento dos negociantes da Praia do Futuro é fruto da nova metodologia do governo que se preocupou em regularizar e educar os empreendimentos. “Não podemos dizer que o ambiente encontra-se cem por cento adequado, mas houve uma grande evolução no que diz respeito a ordenação devido aos nossos esforços. Tanto a praia, quanto a cidade, ainda têm o que se trabalhar, mas comparado a 2015 a situação já melhorou muito”, ressalta.

Além da coleta privada, a praia conta com tratamento disponibilizado pela prefeitura de segunda a sábado, pela manhã, realizado por garis do grupo Marquise, empresa responsável pela higienização urbana de Fortaleza, e passagem de trator que recolhe cocos deixados na areia. Também são retirados entulhos, podas e lixo orgânico dos contêineres distribuídos pelo ambiente.

“Estou gostando da limpeza daqui, antigamente quando eu vinha era pior, mas hoje não vejo nenhum problema. Tanto barracas, como banhistas, estão mais conscientes em relação aos cuidados com o meio ambiente”, avalia o agente de trânsito do Departamento Estadual de Trânsito (Detran- CE), Alisson de Oliveira, 24, frequentador da praia.

Descarte do Lixo

Com novas diretrizes de preservação da natureza, as barracas da Praia do Futuro agora possuem precauções redobradas também com a segregação dos resíduos para que tenham destino final correto. Atualmente, os estabelecimentos separam os produtos e tendem a contratar diferentes corporações para fazerem o descarte, pois para cada tipo de rejeitos existe um fim diferente.

A Braslimp, instituição especializada no gerenciamento de resíduos e responsável pela retirada do lixo de algumas organizações da região, explica que o principal material que recolhem é o lixo comum. Depois de colhidos, os produtos passam por triagem dentro da concessionária e uma parte é levada para o Aterro Sanitário Municipal Oeste de Caucaia (Asmoc) e outra para reciclagem. “Também somos contratados para fazermos coletas específicas e quando fechamos o acordo treinamos os clientes para realizarem a separação do material de forma adequada”, ressalta.  

Além do orgânico e reciclável tratado por parcerias privadas, os proprietários das barracas também se desfazem do óleo de cozinha. “Separamos todo o lixo em um cômodo distante da barraca, inclusive o óleo, que para não ter fim inadequado, levamos para uma associação que produz ração. Quando os fiscais aparecem, mostramos um documento que diz os locais para onde foram cada tipo de resíduo”, conta o supervisor da barraca Cabumba, Antônio Machado.   

Os proprietários das redes alimentícias também usufruem do Ecoponto da região, local de descarte gratuito disponibilizado pela prefeitura. “Acredito que a população está mais consciente e a limpeza da praia melhorou muito. Apesar da maior demanda ser da comunidade, também recebemos materiais de algumas barracas que trazem para o Ecoponto papelão, vidro, plástico, garrafas pets, podas, palhas e entulhos”, revela o operador ambiental Gleyson de Araújo.   

Segundo a Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis), é realizado rotineiramente, por toda cidade, ações para inibir o descarte em áreas não autorizadas. A fiscalização é realizada a partir de denúncias da população, busca ativa e apoio da Guarda Municipal de Fortaleza que quando identificam irregularidades podem aplicar multas que variam de R$ 867,17 a R$ 21.679,38. Conforme o órgão, em 2019, já foram realizadas 747 fiscalizações e 310 autuações em situações de má conduta relacionadas a resíduos sólidos.

Esgotos

É fato que as condições de salubridade de um dos principais pontos turísticos da capital melhorou, mas os esgotos ainda geram grande problemática para barraqueiros e banhistas. “A limpeza acontece bastante, mas o mar é muito sujo, vemos esgoto despejando excrementos dentro da água deixando-a barrenta e com espuma amarelada. Não temos nem como aproveitar o fim de semana direito”, relata a analista de sistemas, Mylla Rayane Silva, 30.   

O proprietário da barraca América do Sol, Flávio Costa, defende que os esgotos não possuem ligação com os estabelecimentos e que quando chove as galerias enchem, inundam o local e afasta a clientela devido ao mau odor.

A enfermeira Alana Kelly de Sousa aconselha a população a evitar o banho e a pesca em lugares impróprios, pois os detritos causam toxicidade física e química da água e dos peixes. “Quando as pessoas entram em contato com esses microrganismos, elas ficam propensas a desenvolverem alergias e diversos tipos de doenças patológicas”, alerta. 

Até o fechamento desta matéria a Companhia de Água e Esgoto do Estado do Ceará (Cagece) não se manifestou sobre a questão.

Turismo versus comunidade  

Embora habitantes próximos a Praia do Futuro reconheçam o avanço na limpeza da praia, muitos relatam que o poder público tem voltado seus planos apenas para o ambiente turístico e esquecido da comunidade.

A vendedora ambulante Socorro Silva, 50, mora próximo a orla desde quando nasceu e conta que onde ficam os banhistas, o local é mais limpo, mas quando se distancia do ponto mais visitado, o cenário é outro. “Se você caminhar pelo calçadão um pouco mais, vai chegar em uma praia desativada com poucas barracas e verá uma casa abandonada que serve para jogar lixo. Por lá, a caçamba demora a passar e o odor invade as casas”, revela.  

O estudante Israel Araújo, 20, também se incomoda com a sujeira e afirma que a maior parte do entulho é da população. “Todos deveriam fazer sua parte e cuidar do seu ambiente, acho um absurdo descer para a comunidade e do lado do Ecoponto ver uma sujeira enorme”, comenta. O operador ambiental, Gleyson de Araujo, confirma a denúncia feita pelo morador e defende que dentro da comunidade tem pontos específicos para a coleta da prefeitura. “A caçamba passa todos os dias, mas a população não coopera e mesmo com o Ecoponto ao lado, insistem em jogar entulhos atrás do equipamento”.

Segundo Gleyson, muitos ainda não possuem consciência ambiental e que por isso, é importante a existência do equipamento de reciclagem na região para reeducar os cidadãos. Ele afirma, que qualquer residente próximo pode deixar o material reciclável para ser feito a triagem, pesagem e desconto na conta de luz de segunda a sábado, de 8h às 12h e de 13h40 às 17h.        

O morador da comunidade Embratel localizada no bairro Caça e Pesca, Jurandi de Castro, 50, também alega que onde mora nem sempre o lixo é recolhido e por conta disso, o material dos contêineres transbordam. “A praia tem mais atenção por ser visitada por turistas, mas a gente que mora um pouco afastado sofre mais”, confessa. 

Quando questionado sobre as reclamações da população, o coordenador especial de limpeza urbana, Albert Gradvohl, explicou que Fortaleza é uma cidade de alta complexidade social e que existem aproximadamente 600 comunidades de difícil acesso, inclusive na Praia do Futuro. “O problema é que as pessoas querem que o caminhão passe na porta toda vez que o lixo for gerado, mas isso não pode e nunca vai acontecer. Ainda estamos aquém de uma coleta profissionalizada, mas o que seria correto é o apanhamento ponto a ponto e não porta a porta”, salienta.

Segundo a SCSP, nos últimos três anos, foi retirada das ruas cerca de 1.796.564 toneladas de lixo e o descarte irregular diminuiu 40%. O órgão admite que apesar do progresso, a problemática ainda persiste em alguns bairros da cidade e garante que medidas estão sendo providenciadas para amenizar as falhas.

Atualmente, Fortaleza está equipada com 57 Ecopontos e a meta é chegar aos 120 até o final do mandato do prefeito, Roberto Cláudio, para auxiliar a população com o material reciclável. Outra providencia é a implementação de lixeiras subterrâneas, Ecopolos, nas áreas de difícil acesso, aonde os carros de coleta não chegam.

Em entrevista, o coordenador Gradvohl revelou que duas atitudes importantes estão em processo na capital alencarina. A primeira é a exploração do gás metano pela empresa Ecometano no aterro sanitário Asmoc, que chegou ao limite em janeiro de 2019. E a segunda medida é o investimento no novo aterro da cidade, estruturado ao lado do atual, com proporções semelhantes ao da Asmoc com 65 hectares. O depositório entrará em atividade ainda no ano de 2019 com estimativa de vida até, pelo menos, 2024.

Contudo, pode-se concluir que a Praia do Futuro progrediu no quesito limpeza entre 2015 a 2019 e foi comprovado que os donos de barracas estão cientes das regulamentações e adequando-se aos padrões estabelecidos pela prefeitura. Porém, o cenário ainda necessita de cuidados e fiscalizações, não somente no território turístico, mas também nos espaços ao redor.

Para colaborar com a gestão de limpeza da cidade, a população pode denunciar casos irregulares, gratuitamente, por meio do número 156, utilizar o aplicativo Fiscalize Fortaleza (disponível em Android e IOS), ou prestar queixas no site denuncia.agefis.fortaleza.ce.gov.br.    

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