O Viajante e o Imperador

Resenha do livro As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino

Uma viagem onírica de Marco Polo por cidades imaginárias que teriam composto o império do conquistador e guerreiro Kublai Khan. É a narrativa do maior viajante de todos os tempos, que chegou à China em uma de suas muitas viagens, para o imperador dos tártaros. Encontro que ocorreu no século XIII na terra de Khan, que não conhecia todas as cidades que compunham suas conquistas e contratou o italiano para descrevê-las e representá-lo. Há pequenas e esparsas interferências de Khan na narrativa, onde ele dialoga com o viajante e comenta sobre o que foi narrado por Polo recentemente. Polo tornou-se embaixador do império de Khan por 17 anos.

O veneziano Marco Polo, o maior viajante de todos os tempos, descreve de forma poética para o grande guerreiro Kublai Khan, o imperador mongol, como seriam as cidades que ele visitara e que Khan conquistara e anexara ao seu imenso império. Todas as cidades têm nomes femininos, como Diomira, Zaíra, Dorotéia, Isidora, Anastácia, Tamara, Zora, Despina, Zirma, Isaura, Murília, Fedora, Zoé, Zenóbia, Eufêmia, Zobeide, Ipásia, Armila, Cloé, Valdrada, Olívia, Sofrônia, Eutrópia, Zemrude, Aglaura, Otávia, Ercília, Bauci, Leandra, Melânia, Esmeraldina, Fílide, Pirra, Adelma, Eudóxia, Moriana, Clarisse, Eusápia, Bersabéia, Leônia, Irene, Argia, Tecla, Trude, Olinda, Laudômia, Perínzia, Procópia, Raíssa, Ândria, Cecília, Marósia, Pentesiléia, Teodora e Berenice, são agrupadas na narrativa em 11 temas, por exemplo: “As cidades e a memória”, “As cidades e o céu”, “As cidades e os mortos”, “As cidades e as trocas”, “As cidades e o desejo”, “As cidades delgadas”, “As cidades e os símbolos”, “As cidades e o nome”, “As cidades contínuas”, “As cidades ocultas”, “As cidades e os olhos”. Ao todo são 55 cidades descritas por Polo.

A estrutura adotada pelo livro é de contos (quase) independentes entre si, mas que formam uma narrativa maior semelhante na forma à obra máxima do brasileiro Graciliano Ramos, Vidas Secas, onde a estrutura é a de capítulos que podem ser lidos como obras independentes, mas que possuem uma unidade, se lidos como um romance. Na obra pode ser sentida uma forte influência do escritor argentino Jorge Luis Borges e do Livro das Mil e Uma Noites.

No conteúdo, a obra de Calvino envereda pelo caminho do sonho desperto, ou surrealismo e do realismo mágico latino-americano, algo semelhante ao que fazia o escritor expressionista checo Franz Kafka, sem a vocação para o tenebroso deste. Kafka, junto com o mexicano Juan Rulfo, foram os legítimos precursores do realismo mágico do colombiano Gabriel García Márquez, do argentino Julio Cortázar, do já citado Borges, de Calvino, e tantos outros.

Calvino, em sua lisérgica obra, define suas cidades imaginárias sem uma época bem delineada, pois não se sabe ao certo em que época a ação ocorre, há elementos contemporâneos e atemporais. Há momentos em que a ação parece ocorrer no período em que o livro foi escrito (1972, mas publicado no Brasil em 1990) e outros momentos em que a ação dá demonstrações de que ocorre no passado, na época em que realmente viveram Marco Polo e Kublai Khan, no século XIII.

Italo Calvino, escritor comunista nascido em Cuba, em 1923, mas criado na Itália, escreveu os livros Por que ler os clássicos (1991). Se um viajante numa noite de inverno (1979), a trilogia Os nossos antepassados: formada por O barão nas árvores (1957), O visconde partido ao meio (1952), O cavaleiro inexistente (1959); Um general na biblioteca (1993), As cosmicômicas (1965),Fábulas italianas (1957), O caminho de San Giovanni (1990). O castelo dos destinos cruzados (1969), Os amores difíceis (1970), O dia de um escrutinador(1963), Marcovaldo (1963), Palomar (1983), Perde quem fica zangado primeiro (1998), Seis propostas para o próximo milênio (1990), Sob o sol-jaguar (1988), e A trilha dos ninhos de aranha (1947), seu primeiro livro.

Italo Calvino, que morreu em 19 de setembro de 1985, na Itália, foi um feroz opositor do fascismo italiano e lutou na Segunda Guerra Mundial ao lado da Resistência Anti-Fascismo. Vários de seus livros foram publicados postumamente.

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