Dona Salete: uma inspiração para a vida

Texto: Erico Cardoso

Dona Salete é vizinha do escritor desse texto há mais de três anos. Uma senhorinha muito atenciosa e doce. Ao longo dos anos tive a chance de ouvir diversas histórias sobre sua vida e também sobre sua dor. Quando tive a primeira oportunidade de entrevistá-la para um trabalho universitário, foi esse o resultado.

(ENTREVISTADOR): Quem é a senhora? Gostaria que falasse um pouco de si mesma.

Foto: Erico Cardoso

(Salete Falcão): “Vixe”, tá igual a psicólogo agora? A mulher mandou dizer quais eram minhas qualidades. Eu sou uma senhora de 70 anos. 70 anos de bem com a vida. Meus exercícios: só caminhar gosto de caminhar. Hidroginástica, gosto de ir “no” shopping. Gosto de “tá” com a família. Gosto muito de conversar, trocar ideias com minhas amigas. Nasci dia 11 de março de 1949. Fui criada à moda antiga. Meus pais me botando de castigo, apanhando de cinturão. Trabalhei para ajudar meus pais. Tive uma infância muito difícil. Nasci em Fortaleza, na Rua Padre Mororó [número] 2182.

(ENTREVISTADOR): A senhora vem de uma familia grande?

(Salete Falcão): Tive sete irmãos. Comigo oito, né. Minha mãe teve 10 filhos, mas dois faleceram. Tenho muito orgulho dos meus pais que eram analfabetos, mas souberam dar criação a todos esses filhos. Nenhum se perdeu. Nenhum deu para a “marginalização”, todos trabalharam, todos estudaram. Todos se formaram. Na verdade, “se” formaram os mais novos, os mais velhos não, “né”?

Tive três filhos casei com 20 tantos anos. Tive três filhos, hoje meus filhos já são adultos e eu sou uma velhinha enxerida (ri), velhinha gaiata que gosta de viver a vida mesmo com as doenças, “né”, com a dificuldade da idade, mas que eu gosto muito de viver a vida. Gosto de fazer amizade, gosto de conversar com minhas amigas…

(ENTREVISTADOR): Como foi crescer com vários irmãos?

(Salete Falcão): Não era ruim. a gente sempre respeitou os pais “d’a gente”, briga tinha, mas não era essas brigas grandes, não. Meu pai botava a gente de castigo e, de repente, já “tava” todo mundo feliz de novo, se abraçando… Meu pai tinha uma história de abraçar a gente, fazer a gente pedir perdão um ao outro. Até hoje nós somos uma família unida. Tem as dificuldades, mas a gente se gosta muito. Quando faleceu essa [referindo-se à irmã recém falecida], a gente se afastou, mas sentimos muita falta porque tem os encontros. Quando minha mãe faleceu, ela pediu: “minha filha, continue com esses encontros.” e a gente tem, uma vez “no” mês, a gente tem “O Encontro das Irmãs”, mas depois que faleceu a outra, não houve mais. A gente tá se cobrando todo tempo esses encontros, mesmo as outras morando longe. Amanhã mesmo a gente vai “tudo” para lá, para a casa de uma outra irmã minha que mora no Maracanaú.

A gente foi uma família pobre, cheia de problemas, por causa da pobreza, né, muita dificuldade. Meu pai era pedreiro, tivemos muitas dificuldades mesmo, mas a gente é uma família muito “perto uma da outra”. Quando uma custa ir na casa da outra, a outra cobra, sabe? E toda família briga, disse que não iria mais lá, mas já vou amanhã. A gente tem essa coisa de família. É um exemplo que tenho. As vezes quando vejo minha família falando, assim, das famílias, eu fico ouvindo e digo que a nossa família, apesar dos problemas, das dificuldades, nós somos unidos. Todas as dificuldades de nossas vidas, ainda continuamos unidos. E quero que meus filhos sejam assim também. Meus dois filhos. Quero que eles sejam como eu fui criada com meus irmãos. Minha mãe soube criar, deu aquele alicerce, “né”? De respeito, de amor um ao outro. Quando estávamos com raiva um do outro, ela dizia “quero isso, não. Pode ir lá dar um abraço na sua irmã! Não quero essa história de mau-querer, isso é muito feio.” e realmente é mesmo!

(ENTREVISTADOR): Gostaria que a senhora falasse do seu ex-esposo.

(Salete Falcão): A relação foi muito tumultuada. Quando conheci meu esposo [perguntei seu nome], Virgílio, eu vinha já do meu primeiro namorado, que “tinha” morrido em um acidente de carro. Aí eu ia lá para a pracinha do Otávio Bonfim e conheci o Virgílio. Os namoros de antigamente eram diferentes. A gente ficava passeando na pracinha, os rapazes ficavam em pé e quando eles passavam a gente derrubava algo para eles apanharem… E ele ficava olhando para mim e eu dizia que não queria porque ele era muito velho. Eu ainda tinha na cabeça o Nelson [namorado que faleceu], que era da minha idade e muito bonito. Ele insistiu bastante e começamos a namorar. Mil maravilhas. Dizia que era muito apaixonado por mim, a gente namorou dois anos. A gente brigava muito, ele era muito ciumento. Eu casei achando que ele “ia” mudar, a gente casou e com o tempo fiquei mais apaixonada do que ele, e minha mãe via nele um partidão, há quarenta anos bancário ganhava dinheiro demais. Minha família via aquilo num grande casamento. Quando eu vivi com ele, era completamente diferente.

Quando ele ia trabalhar, levava a chave da porta para que minha mãe não fosse na minha casa. Para não ir visita. Hoje eu vejo essa história da Maria da Penha e digo “valha, eu passei por tanta coisa e não existia essa lei?”. Aí ele não queria que eu tivesse amizade com vizinho, mas eu tinha mesmo assim. Eu dizia para minhas amigas: “olha, quando eu estiver com ele, não falem comigo.” Não ia ninguém na minha casa, só quem ia era minha mãe, mas ela tinha que entrar pela janela porque ele levava a chave. Ele não queria amizade com ninguém. Bebia muito, também. Farreava. Eu não podia reclamar de nada, a gente só tinha o suficiente. Ele sempre arranjava mulher, né? Aí ele arranjou uma mulher. E foi uma coisa mais séria. Essa mulher “teve” filhos e ele se juntou com ela.

Hoje eu vejo essa história da Maria da Penha e digo “valha, eu passei por tanta coisa e não existia essa lei?”

Até que um dia eu disse “eu não aguento mais.”(nesse momento, noto que ficou mais calma) Fiz uma confusão com ele, foi uma briga muito feia quando descobri que ele estava morando com ela em uma casa. Ele só dormia em casa na semana, no final de semana ele saia. Na sexta-feira ele sumia. Uma vez eu fui seguindo e descobri. Fiquei com muita raiva e fui deixar todas as coisas dele lá e segui minha vida. Essa época foi a pior época da minha vida. Antigamente as pessoas diziam que ruim com ele, pior sem ele. Mulher separada era a vergonha da família. Meu pai e minha mãe tinham uma cabeça muito antiga, e achavam que era feio uma mulher separada na família. Comecei a trabalhar e deixava meus filhos em casa, sozinhos e trancados, para que pudesse trabalhar e dar de comer. Botei ele na justiça e, depois de nove meses, passei a receber uma pensão dele. Aí minha vida melhorou 99%. 100%, não, porque criar filho sem pai é muito ruim. Saí do trabalho para cuidar dos meus filhos, que eram muito pequenos na época. Um tinha dois anos, o outro tinha quatro e o outro seis. Eram muito pequenos e foi assim que criei meus filhos. Tentando ser uma boa mãe.

Depois de um tempo, seis anos depois, arranjei um namorado (sorri). Passei “uns” três anos com o Roberto [namorado]. Só que ele na casa dele e eu na minha. Ele andava lá em casa, todo mundo o conhecia. Certa época ele quis casar, mas aí eu perderia a pensão e eu não quis casar. Aí ele casou com outra. Foi mais sofrimento. Mas hoje eu sou feliz. Eu gosto da minha companhia. Faço o que quero, como eu quero. Só meus filhos que brigam, às vezes. (ri) Sou muito mais feliz agora do que quando ganhava o muito dele [Virgílio], não sei porquê. Eu vivia pior do que agora. O bom é você estar em paz com comigo mesma. Hoje eu ganho com o que eu trabalhei, sou aposentada com o meu dinheiro. Eu não me arrependo de nada do que eu fiz. Minto, só uma coisa que eu me arrependo. De não ter estudado. De não ter feito um concurso e de hoje não estar ganhando tanto. Isso eu me arrependo. Quando me separei, todo mundo falava que era para eu voltar a estudar, mas, antigamente, mulher, quando casava, não era para estudar, nem para trabalhar. Era para viver só em função da família. Eu sempre dava uma desculpa. Achava que a vida toda eu iria receber o dinheiro dele [Virgílio]. E hoje eu me arrependo disso. Nunca fui atrás dele (disse em tom orgulhoso), e não me arrependo disso. Tudo que eu fiz, faria de novo.

Foto: Erico Cardoso

(ENTREVISTADOR): A senhora poderia falar um pouco da sua filha que faleceu?

(Salete Falcão): Minha filha que faleceu, a Samila, não gosto muito de falar dela, porque me emociono. Não é porque morreu. Era uma jovem como todas as outras. Cedo ela namorou. Tenho orgulho das duas mulheres. Foram jovens que me deram trabalho com namorados. A mais velha, Samia, com 15 anos já tinha casado e foi embora. E ela [Samila] também, do mesmo jeito. Ela dizia muito: “Mãe, eu nunca vou dar desgosto à senhora.” Só que ela me deu coisas que não doeram tanto, porque tudo ela me contava. Aos 14 anos ela arranjou um namorado e ele veio pedir ela em casamento. Dois “menino véi”. Aí eu disse que não concordava, porque ele não tinha emprego e ainda estava estudando.

Com uma semana, ela veio me dizer que não poderia mais negar o casamento, porque ela não era mais virgem e eu disse que iria comprar comprimidos [anticoncepcionais], mas você não vai casar. Com pouco tempo, ela diz que está grávida. O menino nasceu no dia em que ela completou 16 anos. Quando ele [o filho] tinha um ano, ela casou. Seis meses depois ela faleceu de um aneurisma. Eu sofri muito, porque ela era muito minha amiga. (começa a chorar) Ela foi aquela pessoa que marcou. Meu filho também sempre foi muito meu amigo. A mais velha sempre foi diferente. Mesmo com todo o sofrimento, ela achava que o pai dela era maravilhoso. Acho que ela ressentia um pouco porque eu “deixei” o Virgílio, mas se não prestava eu iria fazer o que? Fui viver minha vida. Eu pensei assim: como está meu amor próprio? Um homem que me batia, me prendia. Chegou até a me apresentar para uma namorada dele. Disse para ela que já era separado de mim e queria que eu dissesse a mesma coisa. Comecei a juntar as coisas, sofri muito e dei a volta por cima. Minha filha [Sâmia] sempre achou o pai dela maravilhoso, assim como até hoje acha. O que eu posso fazer? É o jeito dela. A gente tem que conviver com as pessoas porque ninguém é perfeito. Não existe ninguém perfeito. Todo mundo tem seus defeitos e qualidades.

(ENTREVISTADOR): A senhora está feliz?

(Salete Falcão): Eu “tô” na melhor idade. Não tenho mais que me preocupar com crianças, meus filhos estão todos criados e vivendo bem. E hoje eu ganho pouco, dá só pra mim, mas é só para mim. O pouco que eu tenho é muito, porque é só para mim. Por isso acho que hoje sou feliz, porque vivo com o que ganho e vivo como quero. Não vou mentir dizendo que não quero ganhar mais, porque quero. Vivo jogando no “Totolec”, na Mega-Sena, mas hoje eu “tô” feliz como “tô”, queria ganhar para poder passear mais, pagar meu plano de saúde, poder viver o que ainda me resta, “né”? Para um monte de coisa que só o dinheiro pode dar nosso conforto. Como a dona Francisca [vizinha] diz, o dinheiro é a mola mestra. Para podermos ter uma vida melhor, mas minha vida é muito boa agora.

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